A rotina de muitos pais, como Paula Gartin no sul da Califórnia, começa com a boa intenção de introduzir os filhos ao esporte. Seus gêmeos, Mikey e Maddy, adoravam futebol e beisebol na infância, encontrando diversão e fazendo amigos. Contudo, ao atingirem a adolescência, a natureza dos esportes juvenis mudou drasticamente. A competição se intensificou, treinadores ficaram mais exigentes, lesões surgiram e a necessidade de se especializar em apenas um esporte para equipes de viagem transformou a paixão em uma tarefa extenuante. Maddy desistiu do futebol, Mikey parou com esportes coletivos aos 15 anos após uma lesão no joelho. A história de Gartin reflete uma tendência preocupante: o burnout infantil nos esportes.
“Sinto que há muito julgamento em torno dos esportes juvenis. Se você não está participando de esportes, não está fazendo o que deveria estar fazendo como criança”, desabafa Gartin. “Há essa expectativa de que você deveria estar envolvido, que é algo que deveria estar fazendo. Você sente que tem que empurrar seus filhos. Há pressão sobre eles.” Embora os esportes possam construir autoestima, confiança, disciplina e habilidades sociais, uma crescente quantidade de pesquisas alerta para os riscos da pressão excessiva de pais e treinadores, a sobrecarga de trabalho que leva ao burnout, rupturas em relações sociais e lesões por uso excessivo.
A Pressão Crescente e Suas Consequências
A profissionalização dos esportes juvenis amplificou a pressão. Um número crescente de ligas é administrado como negócios lucrativos, alimentando a demanda de pais que incentivam seus filhos a começar cedo na esperança de alcançar o esporte universitário ou profissional. Uma pesquisa do Aspen Institute revela que 11,4% dos pais acreditam que seus filhos podem se tornar atletas profissionais. “Há esse empurrão para se especializar cada vez mais cedo”, afirma Meredith Whitley, professora da Adelphi University que estuda esportes juvenis. “Mas a que custo? Para esses jovens, você está vendo o burnout acontecer mais cedo devido a lesões, uso excessivo e fadiga mental.”
Um relatório da American Academy of Pediatrics de 2024 destacou como lesões por uso excessivo e sobrecarga podem levar ao burnout em jovens atletas, citando a pressão de pais e treinadores como fatores de risco adicionais. Outro estudo, no Journal of Sport & Social Issues, apontou que priorizar uma cultura de “vencer a qualquer custo” prejudica o desenvolvimento pessoal e o bem-estar do atleta. Pesquisadores da University of Hawaii descobriram que comportamentos abusivos e intrusivos por parte dos pais podem aumentar significativamente o estresse nos atletas.
O Impacto na Saúde Mental e as Taxas de Abandono
O estresse adicional é uma das principais razões pelas quais mais crianças estão abandonando os esportes. A participação de crianças em idade escolar caiu para 53,8% em 2022, de 58,4% em 2017, segundo a National Survey of Children’s Health. Embora mais de 60 milhões de adolescentes pratiquem esportes, até 70% deles desistem antes dos 13 anos. A saúde mental, um tópico vasto que abrange desde questões clínicas como depressão e pensamentos suicidas até ansiedade e abuso psicológico, tornou-se um foco. Há um movimento crescente para capacitar treinadores a identificar sinais e sintomas de condições de saúde mental. Desde 2020, sete estados dos EUA passaram a exigir treinamento em saúde mental para personal trainers, conforme Vince Minjares, gerente de programa do Aspen Institute’s Sports & Society Program.
Histórias Reais de Burnout e a Busca por Equilíbrio
O ex-jogador de beisebol Travis Snider é um exemplo vívido. Fenômeno juvenil, draftado na primeira rodada da MLB em 2006, Snider teve uma carreira sem brilho e deixou as grandes ligas aos 27 anos. Ao tentar um retorno, ele desenterrou traumas de infância e expectativas irreais. Aos 11 anos, sofreu um ataque de pânico no montinho durante um jogo de playoff. Ele percebeu que prioridades distorcidas transformaram o beisebol em um fardo. Hoje, Snider lidera a 3A Athletics, uma empresa que ajuda crianças, pais e treinadores a desenvolverem abordagens mais saudáveis para o esporte, separando as aspirações profissionais da realidade de que a maioria dos jovens busca apenas exercício e amizade. “Nós, como cultura, realmente misturamos os dois na mesma experiência, o que é realmente tóxico para as crianças enquanto passam pelas primeiras fases de formação de identidade”, disse Snider.
Mesmo instalações de treinamento de elite, como a Driveline Academy em Kent, Washington, estão reconhecendo a necessidade de abordar a saúde mental. Deven Morgan, diretor de beisebol juvenil da Driveline, contratou a 3A Athletics para ajudar pais e atletas a contextualizar o esporte. Em um seminário, Snider e seu parceiro, Seth Taylor, ensinaram técnicas de visualização, relaxamento e a importância de diários para confrontar medos, enquanto os pais aprendiam a ser sistemas de apoio. “Geralmente, há sempre alguns pais que parecem estar segurando muito firme, e as crianças absorvem isso”, observou Amy Worrell-Kneller, mãe de um jovem atleta. “Nessa idade, eles são criaturas sociais, mas tudo começa com os pais.”
Promovendo Ambientes Esportivos Saudáveis
Treinadores também desempenham um papel crucial. A Organização Católica de Jovens (CYO) na Diocese de Cleveland, por exemplo, tenta diminuir a pressão. Em uma sessão de treinamento, 120 treinadores aprenderam a criar “espaços seguros” para as crianças. “As crianças começam a desistir aos 12, 13 anos porque não é divertido e os pais podem tornar isso não divertido”, disse Drew Vilinsky, um dos treinadores. As instruções incluíram deixar as crianças liderarem alongamentos para promover confiança, usar apitos em vez de pistolas de partida para corredores e não informar os tempos dos jovens atletas durante as corridas. “Estamos tentando não sobrecarregar uma criança com ansiedade”, afirmou Lisa Ryder, treinadora de atletismo e cross-country. “O CYO não vai fazer seu filho se tornar o LeBron.”
Enquanto grupos como o Aspen Institute focam em questões duradouras de acesso e custo, combater os problemas de saúde mental em jovens atletas é uma área emergente e vital. Atletas profissionais como Naomi Osaka e Michael Phelps têm lançado luz sobre o tema, mas a responsabilidade de garantir que o esporte permaneça uma experiência positiva recai sobre pais, treinadores e organizações. É essencial que se dê um passo atrás e se desligue do “vórtice” da profissionalização precoce, priorizando o bem-estar e a alegria de brincar acima de tudo.











