A versão das Artes Marciais Mistas (MMA) que fez sua aguardada estreia nos Jogos Asiáticos, em Nagoya, Japão, marca um ponto crucial para o esporte. Longe da intensidade e do espetáculo da jaula do Ultimate Fighting Championship (UFC), esta nova abordagem busca pavimentar o caminho para a inclusão olímpica, um sonho antigo para muitos entusiastas da modalidade.
A Nova Face do MMA para os Jogos
Para se adequar aos padrões dos Jogos Asiáticos, o MMA passou por adaptações significativas. As disputas agora ocorrem em um tablado aberto, sem a tradicional jaula, e os atletas utilizam luvas menores, semelhantes às do boxe. Galastein Tan, diretor-geral da Federação de Artes Marciais Mistas Internacional (FIMMA), explicou à agência de notícias AP que a ausência da jaula é uma tentativa deliberada de se alinhar aos Jogos Olímpicos e, consequentemente, obter o reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional (COI).
“Achamos que, sem a jaula, estamos mais alinhados aos Jogos Olímpicos e, assim, mais próximos de sermos reconhecidos pelo Comitê Olímpico Internacional”, afirmou Tan. “Leva tempo para mudar percepções. Queremos mostrar que existe uma nova forma de MMA, mais compatível com os ideais olímpicos.”
O Obstáculo do Reconhecimento e as Entidades em Disputa
Apesar dos esforços da FIMMA, o caminho para o reconhecimento olímpico é complexo. O COI, em resposta à DW, declarou que “atualmente não reconhece uma federação internacional responsável pela MMA a nível mundial”, o que impede a entrada da modalidade no programa olímpico por enquanto. Essa falta de reconhecimento se agrava pela existência de múltiplas entidades que reivindicam representar o esporte internacionalmente, incluindo a Federação Internacional de Artes Marciais Mistas (IMMAF).
A influência política também entra em jogo. Gordon Tang, bilionário chinês do setor imobiliário, ocupa o cargo de vice-presidente do Conselho Olímpico da Ásia e preside a FIMMA. Essa posição pode ser um facilitador para o MMA em um movimento esportivo que historicamente manteve distância da modalidade, em parte devido a preocupações com seu grau de violência.
UFC: Sucesso Profissional X Sonho Olímpico
Curiosamente, enquanto algumas federações buscam o reconhecimento olímpico, o UFC, que popularizou o MMA globalmente, parece ter outras prioridades. Segundo o jornalista e escritor Karim Zidan, o crescimento estrondoso do UFC tornou a meta olímpica menos relevante para a organização. O sucesso financeiro e a presença em eventos de alto perfil, como o realizado nos jardins da Casa Branca em 2026, demonstram a força do UFC.
“Não acho necessariamente que isso seja tão importante para as MMA. O esporte já encontrou sucesso no nível profissional, que era exatamente o que os fãs buscavam”, afirmou Zidan. Ele acrescenta que “o crescimento do UFC popularizou a MMA, mas também acabou absorvendo grande parte do ecossistema da modalidade. Sobrou muito pouco além dele. O reconhecimento olímpico pode parecer um selo de prestígio, mas não traria muito mais do que isso.”
Para os próximos Jogos Olímpicos, a porta está fechada. As modalidades para Los Angeles 2028 já estão definidas, e o COI confirmou que o MMA também está fora da disputa por uma vaga em Brisbane 2032, pois não atende aos critérios de federações internacionais reconhecidas e presença em programas olímpicos anteriores.
Popularidade, Influência Política e o Caminho Adiante
Galastein Tan aposta na popularidade global do MMA, sua capacidade de despertar forte envolvimento emocional e atrair o público jovem como fatores que podem mudar o cenário. Contudo, Zidan argumenta que essa popularidade está intrinsecamente ligada ao UFC, e não ao esporte amador ou a um ecossistema robusto fora da organização profissional.
A modalidade também enfrenta o desafio de suas ligações políticas. Enquanto o UFC tem laços conhecidos com o governo dos EUA, a IMMAF possui vínculos com a Brave Combat Federation, liderada por Khalid bin Hamad Al Khalifa, filho do rei do Bahrein, um país com histórico de repressão a direitos humanos. Zidan alerta que a conexão entre o MMA e regimes autoritários pode se fortalecer, especialmente em competições amadoras e juvenis.
O desafio da FIMMA é tornar o MMA mais parecido com os esportes convencionais e menos dependente do formato de espetáculo, conforme Alex Engelhardt, vice-presidente da entidade, disse à AP. “É um grande desafio porque toda a mentalidade do esporte ainda gira em torno das promoções e dos eventos comerciais”, ponderou. Mesmo com a legitimidade que a estreia nos Jogos Asiáticos pode trazer, a presença do MMA nos Jogos Olímpicos ainda parece um objetivo distante e repleto de obstáculos.




