A velocidade de adaptação às mudanças é crucial, e as montadoras ocidentais sentem isso na pele. A adoção de veículos elétricos (VEs) por parte dos consumidores não atingiu as projeções otimistas, e governos tanto nos Estados Unidos quanto na Europa estão reduzindo o ritmo dos esforços para acelerar essa transição. Em um movimento significativo, a União Europeia revogou, em 16 de dezembro, a proibição da venda de carros a gasolina a partir de 2035. No dia anterior, a Ford anunciou uma redução de US$ 19,5 bilhões no valor de seus ativos, enquanto revisa sua estratégia para VEs. Contudo, essa desaceleração pode representar um risco considerável para a indústria automobilística ocidental.
A Ambição Eletrizante e o Caminho Acidentado
O compromisso inicial da UE de erradicar rapidamente o domínio dos combustíveis fósseis parecia ambicioso, mas viável em 2022. Naquela época, montadoras tradicionais, inspiradas pelo sucesso e valorização da Tesla, prometeram grandes investimentos em eletrificação. A Volkswagen, por exemplo, projetou que 70% de suas vendas na Europa seriam de VEs até 2030, elevando a meta para 80%; a Stellantis almejava 100%. Nos EUA, a General Motors estabeleceu um prazo de 2035 para a transição completa.
Entretanto, a jornada rumo à eletrificação tem sido turbulenta. Este ano, apenas cerca de um quinto dos carros vendidos na Europa será exclusivamente a bateria, um crescimento insuficiente para eliminar os carros a gasolina até 2035. Altos custos iniciais, escassez de modelos compactos, preocupações com a infraestrutura de carregamento e a inconstância dos subsídios governamentais têm freado a demanda por VEs.
Europa e EUA Freiam o Ritmo
Pressionada por montadoras e pelos governos da Alemanha e Itália, a UE está concedendo um fôlego à indústria. Em vez de uma proibição total, a nova abordagem da UE, descrita pelo banco UBS como “ajustes moderados”, exige que as emissões estimadas de carros novos sejam reduzidas em 90% dos níveis de 2021 até 2035. O restante deverá ser compensado por medidas como o uso de aço “verde”. Embora a UE insista que sua nova estratégia “mantém um forte sinal de mercado para veículos com emissão zero”, a Transport & Environment, um think tank de Bruxelas, estima que, após as mudanças, um quarto dos carros vendidos em 2035 ainda poderá ter alguma forma de propulsão a combustíveis fósseis. As novas medidas ainda aguardam ratificação pelo Parlamento Europeu e Estados-Membros.
Nos Estados Unidos, onde os VEs representam menos de 10% das vendas, a transição estagnou. A preferência do ex-presidente Donald Trump por veículos de alto consumo de gasolina resultou na redução de incentivos. Em resposta, a Ford reestruturou seus planos, descontinuando a versão totalmente elétrica da picape F-150 em favor de um modelo híbrido com um pequeno motor a gasolina para recarregar a bateria. Contudo, a empresa continua desenvolvendo uma picape elétrica mais leve, prevista para 2027, e firmou um acordo com a Renault para produzir VEs pequenos e acessíveis para o mercado europeu.
O Perigo da Hesitação: Ascensão Chinesa
A retração no mercado de VEs pode ser uma aposta arriscada para as montadoras ocidentais. Segundo a consultoria Schmidt Automotive Research, as marcas chinesas já controlavam 10,7% do mercado de carros totalmente elétricos na Europa Ocidental nos primeiros dez meses do ano, um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior. Esse crescimento ocorreu mesmo com a imposição de tarifas adicionais pela União Europeia sobre VEs importados da China, que entrarão em vigor em outubro de 2024. As vendas de híbridos chineses, que não estão sujeitos às novas tarifas, dispararam. A concorrência das marcas chinesas de VEs também se intensifica rapidamente em outras partes do mundo, colocando as montadoras ocidentais em uma posição delicada diante de sua cautela atual.










