A mais tradicional e icônica corrida de rua da América Latina, a São Silvestre, celebra seu centenário nesta quarta-feira, 31 de dezembro, reunindo 55 mil atletas, entre profissionais e amadores, nas ruas da capital paulista. A edição histórica, que marca um século de percurso e emoção, reforça o gigantismo da prova, que teve suas inscrições esgotadas em um tempo recorde de apenas seis horas.
O grande interesse gerou queixas de corredores que não conseguiram garantir uma vaga, como a manicure Priscila Leite, que participou das últimas cinco edições e criticou a desorganização. Diante da demanda, a organização abriu um lote extra de 5 mil vagas, sorteadas para mitigar os “inconvenientes gerados”. O valor da inscrição mais econômica, com kit básico, custava R$ 319,90. Além do simbolismo do centenário, a prova distribui uma premiação histórica de R$ 295 mil, com os campeões faturando R$ 62.600 cada.
Centenário Impulsiona Participação Feminina e Diversidade
A edição de 2025 da São Silvestre não apenas celebra a longevidade, mas também destaca a crescente participação feminina. Das 55 mil vagas, 25.861 serão ocupadas por mulheres, representando 47,02% do total de corredores. Este número representa um salto significativo em relação aos 38,44% registrados em 2024, mostrando uma evolução na presença feminina no esporte.
Em contrapartida, a participação masculina teve uma queda proporcional, passando de 61,55% em 2024 para 52,98% neste ano. A maioria dos participantes é do Estado de São Paulo (55%), seguido por Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. O Sudeste lidera em representatividade regional. A prova também atrai cerca de 4.600 atletas estrangeiros de aproximadamente 44 países, incluindo Áustria, Alemanha, África do Sul, Colômbia, Espanha e Estados Unidos, sublinhando seu caráter internacional.
A Esperança Brasileira Tenta Quebrar o Jejum Contra a Hegemonia Africana
A São Silvestre tem sido palco de um domínio quase absoluto de atletas africanos nas últimas décadas. Os quenianos, em particular, mantêm uma hegemonia notável, com oito vitórias consecutivas na prova feminina e três das últimas cinco entre os homens. Esse cenário impõe um desafio aos corredores brasileiros, que buscam quebrar um longo jejum de vitórias.
Entre as mulheres, a baiana Núbia Oliveira, de 23 anos, surge como uma das principais apostas. Com o terceiro lugar na última edição e uma temporada de excelentes resultados em 2024, Núbia, que integra o programa de alto rendimento do Exército, aprimorou suas marcas em diversas distâncias e realizou treinos em altitude na Colômbia. Ela almeja ser a primeira brasileira a vencer a prova desde Lucélia Peres em 2006, encerrando um jejum de 19 anos.
No masculino, Johnatas Cruz, ex-gari e mineiro de 34 anos, é a grande esperança nacional. Tendo sido o brasileiro mais rápido em 2023 (6º lugar) e 2024 (4º lugar), Johnatas busca destronar os quenianos e etíopes. A última vitória brasileira masculina na São Silvestre foi em 2010, com o tricampeão Marílson dos Santos, que também venceu em 2003 e 2005. “A São Silvestre era muito diferente de tudo o que eu já tinha corrido no mundo. O povo gritando, a gente ia até a exaustão, até onde tinha força”, recordou Marílson.
De Cásper Líbero aos Recordes: A Evolução da São Silvestre
A história da São Silvestre começou na noite de 31 de dezembro de 1925, idealizada pelo jornalista Cásper Líbero após testemunhar um evento semelhante em Paris. Católico, Cásper dedicou o nome da prova a São Silvestre, o papa que estabeleceu a paz na Igreja. A primeira edição teve cerca de 60 inscritos, 48 competidores, e o primeiro vencedor foi Alfredo Gomes, o “Rei do Fôlego”, que completou 8,8 km em 33 minutos e 21 segundos, muitos correndo descalços ou com sapatilhas simples.
Ao longo dos anos, a prova evoluiu significativamente. Inicialmente restrita a homens e brasileiros, abriu suas portas para estrangeiros em 1945. A competição feminina foi criada em 1975, e desde então, a participação das mulheres só tem crescido. A portuguesa Rosa Mota é a maior vencedora feminina, com seis títulos consecutivos (1981-1986), enquanto o queniano Paul Tergat lidera entre os homens com cinco vitórias. Tergat, que esteve em São Paulo para inaugurar o Hall da Fama da São Silvestre, relembrou a energia do público: “Lembro dos espectadores, as pessoas que amam o esporte. Quando estava cansado, subindo a ladeira, eles ficavam torcendo por você de todos os lados. Era incrível”.
A São Silvestre também mudou de horário e percurso: já foi noturna, vespertina (a partir de 1988), e desde 2012 é disputada pela manhã, com o percurso fixado em 15 quilômetros desde 1991. O Brasil acumula 11 vitórias masculinas e cinco femininas em sua história, enquanto o Quênia se destaca com 17 triunfos entre os homens e 18 entre as mulheres, solidificando sua posição como a nação mais vitoriosa da corrida.










