Nos anos 1990, o cenário do futebol brasileiro era marcado por um calendário frequentemente desorganizado. Contudo, essa mesma flexibilidade permitia que a Seleção Brasileira participasse de torneios amistosos entre as competições oficiais. Foi em uma dessas ocasiões que o Brasil disputou, e venceu, a Copa Umbro em 1995, um título que, apesar de sua importância para a geração de jogadores que despontava, acabou ficando um tanto esquecido.
A Umbro, gigante de materiais esportivos fundada em 1924 pelos irmãos Harold e Wallace Humphrey (cujo nome deriva de ‘Humphrey Brothers’), organizou este torneio amistoso. Com uma história centenária e parcerias icônicas, como o fornecimento do uniforme da Seleção Brasileira na conquista do tetracampeonato mundial em 1994, a empresa decidiu reunir algumas seleções patrocinadas – e outras não – para uma competição na Inglaterra. Os convidados foram Brasil, Inglaterra, Suécia e Japão.
O Contexto da Copa Umbro de 1995
O torneio, realizado na Inglaterra, servia como um teste crucial para o país-sede da Eurocopa de 1996. A seleção inglesa vivia um momento de turbulência, tendo ficado de fora da Copa do Mundo de 1994. Com a vaga garantida na Euro por ser anfitriã, a Inglaterra chegava à Copa Umbro sem jogar há quase um ano e meio. Nomes como Paul Gascoigne, retornando de lesão, e Alan Shearer, recém-campeão da Premier League com o Blackburn Rovers, eram os destaques do time que vestia Umbro há mais de 60 anos.
A Suécia, por outro lado, vivia um ótimo momento, tendo surpreendido ao chegar à semifinal da Copa de 1994, eliminada justamente pelo Brasil, e conquistado o terceiro lugar. Curiosamente, os suecos, assim como o Japão, vestiam uniformes da Adidas, concorrente da Umbro. O Japão, por sua vez, também não havia se classificado para o Mundial de 1994.
O Brasil chegava como o atual campeão mundial, mas com uma novidade no comando técnico: Carlos Alberto Parreira havia deixado a seleção, e Zagallo assumira o posto. Para a Copa Umbro, Zagallo convocou uma equipe mesclada. Romário e Bebeto, heróis do tetra, ficaram de fora, mas outros campeões como Zetti, Jorginho, Aldair, Márcio Santos, Zinho e Dunga foram mantidos. Contudo, a grande expectativa recaía sobre a nova geração, com nomes como Roberto Carlos, César Sampaio, Juninho Paulista, Edmundo, Giovanni, Rivaldo e um jovem Ronaldo de apenas 18 anos, que já começava a despontar.
A fórmula de disputa era simples: pontos corridos, com todos jogando contra todos. Quem somasse mais pontos seria o campeão.
A Campanha Brasileira Rumo ao Título
A Copa Umbro começou em 3 de junho, com a Inglaterra vencendo o Japão por 2 a 1 em Wembley, com gols de Darren Anderton e David Platt.
No dia seguinte, a Seleção Brasileira estreou contra a Suécia, no estádio do Aston Villa. Com Zetti, Jorginho, Aldair, Ronaldão e Roberto Carlos; César Sampaio, Dunga e Zinho; Juninho Paulista, Ronaldo e Edmundo, o Brasil fez um grande jogo. Edmundo abriu o placar após jogada iniciada por Zinho e Roberto Carlos, garantindo a vitória por 1 a 0. Uma curiosidade é que, naquela época, Juninho Paulista era apenas ‘Juninho’, e três dos titulares brasileiros atuavam no futebol japonês, um reflexo do alto investimento nipônico na J-League.
Apenas dois dias depois, o Brasil enfrentou o Japão em Liverpool. A seleção japonesa contava com Kazuyoshi Miura, o Kazu, um jogador com vasta experiência no futebol brasileiro. Apesar dos 28 anos de Kazu (que ainda joga profissionalmente aos 59!), o Japão não conseguiu segurar a Seleção Brasileira. Roberto Carlos abriu o placar logo aos 6 minutos. Zinho marcou duas vezes no segundo tempo, um belo chute de fora da área e outro após passe magistral de Edmundo, selando a goleada por 3 a 0.
Enquanto isso, em Leeds, Inglaterra e Suécia protagonizaram um duelo emocionante, que terminou em 3 a 3, com a Inglaterra buscando o empate nos minutos finais após estar perdendo por 3 a 1. Na última rodada dos eliminados, Suécia e Japão empataram em 2 a 2, com Kennet Anderson se sagrando artilheiro do torneio com 3 gols.
A Grande Final em Wembley e a Celebração “Invertida”
O último jogo, entre Brasil e Inglaterra, era a ‘final’ de fato. No icônico estádio de Wembley, com a presença do Rei Pelé nas tribunas, o Brasil precisava apenas de um empate para ser campeão, enquanto a Inglaterra necessitava da vitória. A Seleção Brasileira entrou em campo com a mesma base: Zetti, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Roberto Carlos; César Sampaio, Dunga e Zinho; Juninho Paulista, Edmundo e Ronaldo.
A Inglaterra abriu o placar aos 38 minutos do primeiro tempo com um belo chute de fora da área de Graeme Le Saux. Edmundo ainda assustou com uma bola na trave, mas a virada brasileira veio no segundo tempo. Primeiro, Juninho Paulista empatou em uma cobrança de falta. Em seguida, Ronaldo driblou o goleiro Tim Flowers e mandou para as redes. O gol da vitória e do título veio dos pés de Edmundo, que chutou no meio das pernas do goleiro inglês. Final: Brasil 3, Inglaterra 1.
Após a partida, em uma cena curiosa, a tradicional troca de camisas fez com que a celebração do troféu da Copa Umbro parecesse ‘invertida’, com muitos jogadores ingleses vestindo amarelo e brasileiros comemorando de vermelho.
O Legado e a Vitrine para o Futebol
A Copa Umbro de 1995 se mostrou uma vitrine importante para diversos jogadores. Juninho Paulista, em particular, teve um excelente campeonato, atraindo a atenção de clubes europeus. Ainda em 1995, ele assinou com o Middlesbrough, recém-promovido à primeira divisão inglesa, onde se tornaria um dos maiores ídolos da história do clube.
Menos de um mês após a conquista da Copa Umbro, a Seleção Brasileira disputaria a Copa América no Uruguai, com um elenco praticamente idêntico, incluindo a adição de Túlio Maravilha, que se tornaria o artilheiro do torneio. O Brasil alcançou o vice-campeonato, perdendo a final para o Uruguai nos pênaltis.
A Copa Umbro, no formato de seleções nacionais, nunca mais foi realizada. No entanto, a empresa organizou o torneio mais duas vezes com clubes europeus: em 1996 e 1997, ambas edições vencidas pelo Chelsea, que enfrentou times como Ajax, Manchester United, Nottingham Forest e Newcastle. O título de 1995, embora um ‘esquecido’ em meio a tantas glórias, marcou um momento de transição e revelação para a Seleção Brasileira, solidificando nomes que brilhariam nos anos seguintes.





