Em junho de 1998, a expectativa para a Copa do Mundo da França era palpável no Brasil. Com Ronaldo Fenômeno no auge, a Seleção Brasileira era apontada como uma das grandes favoritas ao título. Contudo, antes de iniciar sua jornada rumo ao hexa, o Brasil disputou um amistoso de preparação que, à primeira vista, parecia apenas mais um jogo contra um adversário sem grande expressão. Mas a partida contra Andorra se revelaria peculiar por diversos motivos, alguns deles só vêm à tona anos depois.
Andorra, um pequeno país encravado entre a França e a Espanha, nos Pirineus, não é amplamente conhecido por sua tradição futebolística. Com uma área de pouco mais de 460 quilômetros quadrados – caberiam três Andorras na cidade de São Paulo –, o desafio para a Seleção Brasileira não estava no tamanho do território, mas na irrelevância da seleção andorrense no cenário mundial. Fundada em 1996, a equipe de Andorra tinha apenas dois anos de existência e um currículo breve: quatro jogos, quatro derrotas.
O Pequeno Gigante: Quem era a Seleção de Andorra?
É comum que as seleções evitem grandes confrontos antes de uma Copa, buscando preservar o elenco de lesões e evitar abalos na moral. No entanto, a escolha de Andorra como adversário chamava a atenção. A história do futebol brasileiro guarda outros amistosos curiosos, como a infame derrota por 1 a 0 para a seleção da Úmbria, na Itália, antes da Copa de 1990, com jogadores da terceira divisão italiana. Em 1994, o Brasil enfrentou Canadá, Honduras e El Salvador na preparação para o tetra, com resultados mistos.
Mas Andorra era um caso à parte. Antes da estreia na Copa de 1998, marcada para 10 de junho contra a Escócia, o Brasil já havia empatado em 1 a 1 com o Atlético de Bilbao. Quatro dias depois, em 4 de junho, era a vez de encarar Andorra no estádio Bauer, na cidade francesa de Saint Ouen. Curiosamente, este mesmo estádio foi palco, nos anos 80, das gravações do filme “Fuga para a Vitória”, que reuniu Pelé e Sylvester Stallone. Com capacidade para 10 mil torcedores, o Bauer recebeu pouco mais de 5 mil pessoas para o histórico amistoso.
O Palco e os Protagonistas Inesperados
Um detalhe peculiar do amistoso foi o uniforme de Andorra. Assim como o Brasil, a seleção andorrense vestia Nike. Contudo, sem um contrato milionário, os uniformes foram doados pela empresa para que o jogo pudesse ocorrer, já que Andorra não possuía um fornecedor de material esportivo próprio.
A Seleção Brasileira entrou em campo com sua força máxima, a mesma escalação que iniciaria a Copa: Taffarel, Cafu, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos, César Sampaio, Dunga, Giovanni e Rivaldo, e no ataque Ronaldo e Bebeto. Do outro lado, a realidade era bem diferente. A maioria dos jogadores de Andorra não era atleta profissional. Entre eles, estava o goleiro Koldo Álvarez, que na época era professor em uma escolinha de futebol e hoje é o treinador da seleção andorrense desde 2010. Outro nome conhecido era o meio-campo Jesús Lucendo, que chegou a disputar uma partida oficial pelo Barcelona em 1990, mas sua atuação foi tão criticada que aquela foi sua única aparição pelo clube catalão.
No banco de Andorra, uma figura brasileira: Manoel Miluir. Uma espécie de “Forrest Gump” do futebol, Miluir já havia treinado equipes em Portugal, Hong Kong, Peru, Emirados Árabes Unidos e no Brasil, e comandou a seleção de Andorra entre 1997 e 1999.
Em Campo: Um Placar Menos Elástico do Que o Previsto
O governo de Andorra chegou a prever um vexame, com apostas de um placar elástico de 15 a 0. Mas a história em campo foi outra. Andorra mal ameaçou o gol brasileiro, e Taffarel praticamente não trabalhou. No entanto, o ataque brasileiro, apesar de toda a sua constelação, demorou a engrenar. As poucas chances do primeiro tempo pararam nas mãos do goleiro Koldo.
Aos 25 minutos, após um bate-rebate na área, Giovanni abriu o placar para o Brasil. Menos de um minuto depois, o segundo gol: após a saída de bola de Andorra, o Brasil recuperou a posse, Bebeto tocou para Ronaldo na direita, que serviu Rivaldo, livre, para fazer o 2 a 0. Ronaldo, por sua vez, tentava de todas as formas deixar sua marca, mas teve um gol anulado por impedimento e viu Koldo operar um milagre em outra finalização.
No intervalo, Zagallo fez duas substituições, tirando Dunga para a entrada de Doriva e Giovanni para Leonardo. No início do segundo tempo, Cafu driblou o goleiro de Andorra e marcou o terceiro gol brasileiro. Atrás do gol onde o Brasil atacava, um garoto de 12 anos trocava as plaquinhas de madeira do placar, preparado para registrar até 99 gols.
Zagallo aproveitou o segundo tempo para fazer mais mudanças, substituindo Taffarel por Carlos Germano, Roberto Carlos por Zé Roberto, Aldair por André Cruz, e Rivaldo por Denílson. Edmundo, uma das grandes expectativas após o corte de Romário, não entrou em campo. No final, o placar, menos elástico do que o previsto, terminou em 3 a 0 para o Brasil.
Pós-Jogo e os Bastidores Obscuros
No dia seguinte, os jornais destacavam o jejum de gols do ataque brasileiro e as críticas a Ronaldo, que muitos consideravam o pior jogador da Seleção na partida. Manoel Miluir, técnico de Andorra, reclamou em entrevista pós-jogo que Zagallo não o cumprimentou ao final da partida. Apesar da derrota, ele comemorou o resultado: “Quando saímos de nosso país, achavam que íamos perder de 15 a 0 ou 20 a 0. Perdemos de 3 a 0. Foi um ótimo resultado.” Miluir ainda revelou que seus jogadores nem puderam treinar no estádio do jogo, improvisando em um campo de terra.
Anos depois, a partida entre Brasil e Andorra ganharia outra dimensão. Andorra é considerada um paraíso fiscal, um local com impostos baixos, ideal para guardar dinheiro. Em 2007, uma investigação da polícia espanhola e do FBI revelou que o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, teriam usado a Seleção Brasileira para desviar dinheiro. Amistosos inusitados em locais peculiares, como o contra Andorra, teriam sido utilizados para encher os bolsos da dupla, com cachês desviados para contas em bancos espalhados pelo mundo, inclusive em Andorra.
A seleção de Andorra, alheia aos escândalos, continuou sua saga de muitas derrotas no futebol. O primeiro adversário da França após a final da Copa de 1998 foi justamente Andorra, pelas Eliminatórias da Eurocopa de 2000, com vitória francesa por 2 a 0. A primeira vitória oficial da história de Andorra só veio em 2004, contra a Macedônia, pelas Eliminatórias da Copa de 2006. Treze anos depois, em 2017, conquistou sua primeira vitória fora de casa, contra San Marino, e no mesmo ano venceu a Hungria, alcançando duas vitórias no mesmo ano pela primeira vez. A vida do torcedor de Andorra, sem dúvida, é de paciência e perseverança.





