A pergunta sobre quantas pranchas um surfista realmente precisa é uma das mais frequentes entre os entusiastas do esporte, e a resposta, como em muitas situações na vida, é: “depende”. No entanto, entender do que essa necessidade depende pode transformar a sua relação com o equipamento, otimizando sua performance e até mesmo seu investimento.
O conceito de “quiver” no surf refere-se ao conjunto de pranchas que um surfista possui para utilizar em diferentes condições de mar. Assim como um golfista seleciona o taco ideal para cada tacada, um surfista experiente escolhe sua prancha conforme o tamanho, a força e o tipo da onda, seja ela pequena, média, grande, tubular ou cheia. Cada prancha é desenhada com um propósito específico.
Iniciantes: Uma Prancha é Suficiente para os Primeiros Passos
Se você está começando a surfar, a boa notícia é que você precisa de apenas uma prancha. Idealmente, essa prancha deve ser um longboard ou um funboard. Esses modelos são mais largos, mais estáveis e mais tolerantes a erros de equilíbrio, facilitando a remada e a entrada nas ondas. O erro comum de iniciantes é buscar uma shortboard (pranchinha) na esperança de uma evolução mais rápida. Contudo, essa escolha geralmente leva à frustração, pois a pranchinha exige um nível avançado de equilíbrio, leitura de onda e posicionamento que leva tempo para ser desenvolvido. É como tentar aprender a dirigir em um carro de Fórmula 1: o veículo é potente, mas não te ensinará a pilotar, e sim a bater.
Quando a Segunda Prancha se Torna Indispensável
A necessidade de uma segunda prancha surge quando o surfista já consegue pegar ondas com consistência, se posiciona bem no pico e executa manobras básicas. Nesse estágio, o atleta começa a perceber que sua prancha atual não atende a todas as condições do mar. Um mar grande e agitado exige uma prancha diferente de um mar pequeno e fraco.
Para surfistas nesse nível, uma combinação funcional é ter uma prancha maior e mais volumosa para dias de ondas pequenas e fracas, e uma prancha menor para quando o mar estiver maior ou com ondas mais rápidas. Com essas duas opções, é possível surfar com qualidade em cerca de 90% das condições encontradas nas praias brasileiras.
A Ciência por Trás do Quiver dos Profissionais
Observando o Championship Tour (CT), o circuito mundial de surf, percebemos que atletas como Ítalo Ferreira e Gabriel Medina viajam com sarcófagos repletos de pranchas – muitas vezes, entre oito e doze. Cada uma é meticulosamente projetada em colaboração com o shaper (o artesão que fabrica a prancha) para ondas e condições muito específicas.
Em ondas grandes e tubulares como Teahupo’o, pranchas menores e com menos volume são usadas para permitir um tubo mais profundo e manter a velocidade. Já em ondas menos tubulares e mais lentas, como as que ocasionalmente surgem em Saquarema, pranchas com mais volume e maior área no meio são empregadas para gerar velocidade mesmo em mares com pouca energia. Essa precisão demonstra que a escolha da prancha é uma ciência, e o shaper é um pilar fundamental na carreira de um atleta de elite.
Volume e Shaper: Peças Chave na Escolha da Sua Prancha
A litragem (volume em litros) é uma medida crucial que indica a flutuação e estabilidade da prancha. Mais volume significa maior flutuação e estabilidade, facilitando a remada e a entrada na onda, mas pode dificultar as manobras. Pranchas com menos volume são mais rápidas nas manobras, porém mais difíceis de controlar e exigem uma remada mais forte e um posicionamento preciso para pegar a onda.
No entanto, não se prenda apenas ao volume. É essencial considerar outras medidas que fazem grande diferença na performance. Por isso, independentemente do seu nível, a comunicação com seu shaper é indispensável. Explique seus objetivos e características físicas para que ele possa criar a prancha ideal para você.
Ter um quiver bem pensado é um diferencial. O surfista Pedro Bento, por exemplo, destaca seu carinho por suas pranchas, que representam memórias e aprendizados. Seu quiver, que ele considera ideal para intermediários e avançados, inclui um longboard clássico para dias de mar calmo, um progressivo para mar agitado e maior mobilidade, e uma “mix” (mistura dos dois) para treinar em diversas condições.
A busca pelo quiver ideal é contínua. Mantenha-se em diálogo com seu shaper, estude sobre o tema e troque experiências com outros surfistas. O conhecimento compartilhado e as novidades do mercado podem fazer toda a diferença no seu surf. Até a próxima! Ihii!




