As vaias ecoaram intensas no Maracanã na noite desta quarta-feira (19) durante o confronto entre Flamengo e Cruzeiro, pelas oitavas de final da Libertadores. O alvo era Gerson, meio-campista que hoje defende a Raposa Mineira e teve um primeiro tempo apagado sob forte hostilidade da torcida rubro-negra. A rejeição, contudo, não é exclusividade do Flamengo; o jogador também é malvisto pela torcida do Fluminense, clube onde foi revelado. Mas o que transformou o outrora “Coringa” em um dos alvos preferidos da ira rubro-negra?
A polêmica saída para a Rússia
A relação de Gerson com o Flamengo começou a desandar em julho, quando trocou o clube carioca pelo Zenit, da Rússia. A negociação de 25 milhões de euros não pegou bem com a torcida, especialmente porque a multa rescisória havia sido reduzida meses antes, durante uma renovação de contrato. A passagem pela Rússia, no entanto, foi um desastre esportivo. Gerson chegou com desgaste físico e sofreu uma lesão de estresse nas primeiras semanas, ficando fora por cerca de dois meses. Ao todo, disputou apenas 14 jogos e marcou um único gol antes de ser negociado com o Cruzeiro seis meses depois.
O baixo rendimento contrastou com a expectativa gerada. Um ex-companheiro de Zenit chegou a declarar publicamente não entender a queda de produção do brasileiro. Para boa parte da torcida do Flamengo, a frustrante experiência russa reforçou a sensação de que a saída não valeu a pena esportivamente, já que o jogador, que anteriormente havia sido convocado por Carlo Ancelotti para a seleção brasileira, saiu do radar.
A batalha judicial por milhões
O desgaste com o Flamengo não ficou restrito às arquibancadas e migrou para os tribunais. O clube entrou na Justiça cobrando cerca de R$ 42 milhões de Gerson, referentes a uma cláusula de direitos de imagem prevista no contrato encerrado. Em resposta, o jogador não poupou palavras, classificando o processo como covarde e acusando o Flamengo de agir “cego pelo desejo ardente de vingança”.
A disputa judicial segue até hoje, mais de um ano após a saída, mantendo a relação entre as partes distante de qualquer reconciliação. Para muitos torcedores, a ida para o Zenit em busca de um salário três vezes maior consolidou a imagem de “mercenário”. Termo que passou a acompanhar Gerson desde o embarque para o Mundial de Clubes, quando torcedores exibiram notas falsas de R$ 3 estampadas com o rosto dele.
O sentimento de “traição” em campo e na história
O retorno de Gerson ao Brasil, agora vestindo a camisa do Cruzeiro, reabriu uma ferida ainda não cicatrizada na torcida do Flamengo. Após deixar o clube em busca de um salário maior na Rússia e viver uma experiência frustrante, o jogador voltou ao país para enfrentar justamente o ex-time nas oitavas de final da Libertadores, reforçando a sensação de deslealdade e falta de gratidão com a história construída na Gávea.
A relação de Gerson com a “traição”, entretanto, não nasceu com o Flamengo. O meio-campista foi revelado nas categorias de base do Fluminense, em Xerém, onde passou por todas as etapas de formação. Em 2019, ao retornar ao futebol brasileiro após uma passagem pela Roma, Gerson não escolheu o clube que o formou, mas sim o seu maior rival histórico, o Flamengo. O jogador nunca escondeu que era torcedor rubro-negro desde criança, o que tornou a escolha ainda mais dolorosa para quem acompanhou sua trajetória desde Xerém, consolidando o rótulo de “traidor” também do outro lado do Rio de Janeiro.





