No universo do futebol brasileiro, a paixão pelo Corinthians, que move 35 milhões de torcedores, parece ser inversamente proporcional à intensidade do sentimento de uma vasta “nação anticorinthiana”. Estima-se que cerca de 150 milhões de pessoas, desconsiderando aqueles que não acompanham o esporte, vivem para torcer contra o time do povo. Essa rivalidade, muitas vezes, transcende o campo, transformando eventos simples em gatilhos para debates acalorados e, segundo críticos, para a manifestação de um ódio velado.
Historicamente, o Corinthians tem sido um alvo constante. A invasão de torcedores no Rio de Janeiro, em Brasília ou mesmo no Japão, a ponto de superar numericamente as torcidas rivais em seus próprios territórios, sempre gerou urticária. A postura do clube em defesa da Democracia durante a Ditadura Militar, um fato histórico inegável, incomoda aqueles que tentam minimizar sua relevância. Para muitos, a vida não é apenas viver de Corinthians, mas viver para torcer contra ele, num fenômeno que o autor Vitor Guedes descreve como enraizado em uma parcela “quatrocentona, escravagista, racista, classista, machista e elitista” da sociedade brasileira.
A Nação Anticorinthiana e Suas Raízes Profundas
O fenômeno anticorinthiano não é um exagero, mas uma constatação baseada em fatos. A cada movimento do clube, a reação de parte da mídia e da torcida adversária é desproporcional. A grandeza do Corinthians, medida pela magnitude da torcida contra, é um indicativo claro de sua relevância e do impacto que suas ações geram no cenário nacional.
O Espelho do Caso Cuca: Hipocrisia Revelada
Um exemplo notório dessa disparidade de tratamento foi a contratação do técnico Cuca pelo Corinthians. Décadas após o treinador ter trabalhado em São Paulo, Palmeiras e Santos sem qualquer histeria ou contestação sobre seu histórico, a sua chegada ao Parque São Jorge desencadeou uma onda de indignação e debates intermináveis. O passado de Cuca era o mesmo, os fatos pregressos já eram conhecidos, mas a reação foi drasticamente diferente quando se tratou do Corinthians. Embora o autor concorde com o tratamento dado à contratação no contexto corinthiano, ele ressalta a diferença abissal em relação aos rivais paulistas, destacando uma seletividade que beira a hipocrisia.
Memphis e a Farsa das Finanças
Mais recentemente, a discussão em torno de um jogador de alto calibre como Memphis, o maior artilheiro da história da Holanda – que, segundo o texto, “quis o Corinthians e joga no Corinthians porque quis” – serviu como um novo palco para essa dinâmica. A preocupação com as finanças do clube, levantada por muitos críticos, é vista como uma cortina de fumaça. Se a preocupação fosse genuína, questiona-se por que os mesmos críticos não se incomodam com contratos milionários de jogadores de menor impacto em outros clubes, que pouco ou nada agregam esportivamente ou financeiramente. A verdade, para o autor, é que ninguém que “odeia o Corinthians” está realmente preocupado com a saúde financeira do clube, mas sim em destilar ódio, real ou encenado.
Programas de debate esportivo frequentemente se transformam em verdadeiras “mesas de contabilidade” quando o assunto é o Corinthians, focando exclusivamente na saída de dinheiro e ignorando as entradas. Os críticos, por vezes, demonstram ignorância sobre a complexidade do “negócio futebol” e hipocrisia ao não considerar os ganhos financeiros que o Corinthians obteve com classificações para a Libertadores, conquistas da Copa do Brasil e do Paulista, e o constante esgotamento da Neo Química Arena, que são diretamente impulsionados pela força e competitividade do elenco.
A Linha Tênue entre Rivalidade e Ódio Disfarçado
É inegável que o primeiro contrato de Memphis, assinado na gestão Augusto Melo, levanta questionamentos legítimos, e torcedores corinthianos genuinamente preocupados com o clube, por razões contábeis reais, merecem todo o respeito. O que não é tolerável, segundo o autor, são os “canalhas falsos” que, sem coragem de assumir abertamente o desejo de ver o Corinthians fracassar, se travestem de “contadores responsáveis”. Esses cínicos e covardes, que torcem para uma contratação dar errado por saberem que ela é boa para o adversário, não merecem respeito.
A rivalidade no futebol é natural e saudável, com torcedores de outros times orgulhosamente torcendo contra em campo e celebrando derrotas. Isso faz parte do jogo. No entanto, a manipulação da narrativa e o uso de falsas preocupações para disfarçar o ódio e capitalizar sobre ele é uma prática que o jornalista Vitor Guedes, com sua coluna “Vitão Raiz” no iG, faz questão de denunciar. “Viva a memória!”, conclui, lembrando a importância de discernir entre um rival honesto e um “contador” disfarçado.




