Em um cenário político onde a polarização e a busca por identidades simplificadas se intensificam, a escolha do voto se torna um ato ainda mais carregado de significado. Para mim, o clube do coração jamais foi, é ou será critério para definir minhas opções eleitorais. Como bem alertou Bertolt Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e é preciso vigilância constante para que os valores democráticos prevaleçam.
Minhas escolhas para os seis cargos em disputa – deputado federal, deputado estadual, duas vagas ao Senado, governador e presidente – foram fruto de profunda reflexão, análise e estudo. Curiosamente, ao pesquisar, descobri que meus candidatos representam um mosaico de paixões clubísticas: um santista, duas corintianas, uma palmeirense, um são-paulino e outro corintiano. No entanto, reafirmo, esta é apenas uma curiosidade, sem qualquer influência em minha decisão democrática. Houve votos fáceis, outros difíceis, alguns por exclusão, mas todos conscientes e alinhados aos meus princípios.
A Distorção da Representação: Clubes na Campanha
É lamentável observar, em cada eleição desde a redemocratização, a proliferação de candidatos que utilizam o clube de coração como plataforma para atrair votos. Ex-jogadores, torcedores organizados ou não, influenciadores e até jornalistas transformam a campanha em um palco para defender seus times em Brasília ou nas assembleias estaduais. Discursos como “palmeirense vota em palmeirense” ou “vou representar o Vasco em Brasília” são um completo absurdo e tratam os eleitores como meros torcedores, e não como cidadãos.
Essa prática ignora a essência da representação política. O papel de um senador, deputado federal, deputado estadual ou vereador é representar o cidadão, a sociedade em sua pluralidade, e não a torcida de um time específico. Lembro-me com tristeza do advogado são-paulino José Izar, que em 1996, elegeu-se vereador de São Paulo com o slogan “corinthiano vota em corinthiano”, inclusive grafando o termo com ‘TH’ para simular uma identidade que não possuía. É uma deturpação do processo democrático.
Valores Inegociáveis e a Camisa da Democracia Corinthiana
Como cidadão e eleitor, tenho asco e nojo de tudo o que representa o bolsonarismo e os “valores” da extrema direita. Minha posição é clara e declarada: sempre estarei na trincheira oposta a essa gente. Isso se estende a qualquer manifestação que contrarie meus princípios, inclusive dentro do meu próprio clube. Minha paixão pelo Corinthians não é medida pela adesão a figuras que apoiam candidatos que desprezo. A urna eletrônica e segura não é um plebiscito de corintianismo ou de paixão por qualquer clube.
É com muito orgulho que, neste domingo, irei à urna vestindo minha camisa listrada em preto e branco. Não qualquer camisa, mas aquela alusiva à Democracia Corinthiana. Sem dizer uma palavra, ela dirá tudo: ditadura nunca mais! Tortura nunca mais! Fascismo nunca mais! Em memória de tantos, como o corintiano Vlado, essa camisa é um símbolo inegociável. Reconheço que existem corintianos fascistas, claro, mas tenho a convicção de que essa gente tem vergonha de usar um manto que celebra a democracia, preferindo, talvez, homenagear torturadores.
Definição de Escolhas e Valores Pessoais
Meus votos são resguardados em segredo, como é meu direito. No entanto, posso dar algumas dicas sobre os valores que os guiam: não bebo detergente, tenho a convicção de que a Terra é plena, tomo vacina, não abro mão do estado laico, respeito todas as religiões e tenho nojo de fascismo e asco de quem faz apologia à tortura e condecora milicianos. São esses os meus valores, e eles, sim, são o critério absoluto para cada escolha que faço na urna.





