O São Paulo Futebol Clube se prepara para prestar esclarecimentos à Polícia Civil sobre uma série de 35 saques, totalizando R$ 11 milhões, realizados entre 2021 e 2025, período da gestão do presidente Júlio Casares. As movimentações foram classificadas como atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), gerando um inquérito que abala os bastidores do MorumBis.
De acordo com os advogados do clube, os valores em dinheiro vivo teriam sido destinados a “compromissos rotineiros do futebol que exigem dinheiro em espécie”, como premiações a jogadores (o chamado “bicho”), pagamentos de direitos de imagem, despesas com arbitragem, alimentação e ações promocionais. Essa prática, segundo o clube, tornou-se necessária com a digitalização das vendas de ingressos via Pix, que substituíram a antiga utilização do dinheiro da bilheteria para esses fins.
As Justificativas do Clube para os Saques
A defesa do São Paulo aponta que, até 2021, o dinheiro proveniente da bilheteria era empregado para cobrir esses custos imediatos. Com a transição para métodos de pagamento digitais, a tesouraria passou a necessitar de saques diretos das contas bancárias para honrar tais compromissos nos dias de jogos. O advogado Pedro Ivo Gricoli Lokoi, que representa o clube, enfatiza a posição técnica e isenta da defesa, assegurando que os saques estão contabilizados e que qualquer desvio será investigado.
Considerando os 361 jogos do futebol profissional masculino e os 176 do feminino no período, os saques representariam um valor médio de R$ 20,48 mil por partida, embora não houvesse uma retirada a cada jogo. O ano de 2024 foi o que registrou o maior número de saques, com 11 retiradas. Um perito contador foi contratado para elaborar um laudo detalhado que comprovará o destino de cada movimentação.
A Defesa Pessoal de Júlio Casares
Em paralelo à investigação dos saques do clube, o presidente Júlio Casares também é alvo de um inquérito policial sobre uma movimentação de quase R$ 1,5 milhão em suas contas pessoais entre janeiro de 2023 e maio de 2025. A quantia levantou suspeitas, pois não condiz com seu salário de R$ 27,5 mil como presidente, que totalizaria R$ 617,5 mil no período. Detalhes como até 12 saques diferentes no mesmo dia, somando R$ 49 mil – pouco abaixo do limite para notificação automática do Coaf –, foram observados.
Bruno Borragine, advogado de Casares, argumenta que o montante tem origem lícita, provindo de economias que o presidente acumulou em sua carreira no mercado privado, antes de assumir a presidência. “Esse dinheiro não tem a ver com os R$ 11 milhões sacados para gastos do São Paulo”, afirma Borragine, destacando que Casares, com um decréscimo considerável na renda ao assumir o cargo, recorreu às suas reservas financeiras em espécie.
Inquérito Policial e Pedido de Impeachment
Além das movimentações financeiras, a Polícia Civil investiga o uso irregular de um camarote no MorumBis por diretores da gestão de Casares, após o vazamento de um áudio. Esse caso, juntamente com acusações de má gestão orçamentária e venda de atletas abaixo do valor de mercado, sustenta um pedido de impeachment contra o presidente.
O processo de impeachment, com 57 assinaturas, será discutido em reunião do Conselho Deliberativo no dia 16. Para o afastamento provisório de Casares, são necessários no mínimo 191 votos (75% dos conselheiros). Caso aprovado, uma Assembleia Geral de sócios decidirá a ratificação da decisão por maioria simples. Se afastado em ambas as instâncias, Casares será banido do clube. Em caso de renúncia, ele manteria sua posição no Conselho Consultivo, cenário similar ao vivido pelo ex-presidente Carlos Miguel Aidar em 2015.





