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Portuguesa SAF: Contrato Revela Aporte de R$ 30 Milhões, Longe

Portuguesa saf: contrato revela aporte de r$ 30 milhões, longe

A promessa de um investimento bilionário na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) da Portuguesa, amplamente divulgada desde o anúncio em 2024, contrasta drasticamente com a realidade dos valores garantidos por contrato. Enquanto a cifra de R$ 1,2 bilhão ecoava na imprensa e entre torcedores, documentos revelam que o aporte direto e obrigatório dos investidores se limita a R$ 30 milhões.

A apresentação da SAF da Lusa, com a parceria entre a Portuguesa, Tauá, Revee e XP, gerou grande expectativa. Interlocutores espalharam a informação de um projeto de R$ 1,2 bilhão, um número que rapidamente se incorporou ao imaginário público. No entanto, o contrato firmado, ao qual esta coluna teve acesso, demonstra um cenário financeiro muito mais contido no que diz respeito ao investimento direto no futebol.

A Discrepância entre o Discurso e o Contrato

A cifra de R$ 1,2 bilhão foi construída a partir de uma soma de diferentes elementos: R$ 450 milhões para a dívida da Portuguesa (assumida pela SAF), R$ 500 milhões para a reforma do estádio Canindé e R$ 263 milhões para o que foi chamado de investimento em futebol. Esta última parte, por sua vez, incluía R$ 50 milhões para reforços, R$ 18 milhões para reforma do CT, R$ 44 milhões para futebol de base, R$ 7 milhões para futebol feminino e R$ 144 milhões em folha salarial do futebol nos próximos cinco anos.

A prática de misturar dívidas, investimentos em infraestrutura e despesas correntes, como folha salarial projetada para anos futuros, é comum entre algumas SAFs no Brasil. Essa estratégia infla os números apresentados ao público, criando uma percepção de grandiosidade que nem sempre se reflete no compromisso financeiro direto e imediato com o departamento de futebol.

O Que o Contrato Realmente Garante

O acordo detalha que o “investimento dos investidores” se resume a um aporte de R$ 30 milhões por parte dos novos donos da SAF. Esse valor foi dividido em R$ 12 milhões à vista e R$ 18 milhões a serem pagos no momento em que a Tauá recebesse as ações da SAF. A Tauá assumiu 80% do capital da SAF, enquanto a Associação Portuguesa de Desportos reteve 20%.

Além disso, o contrato prevê a possibilidade de um financiamento de R$ 120 milhões, a ser obtido junto a bancos como XP ou Modal. Importante ressaltar que este é um financiamento, ou seja, uma dívida a ser paga pela própria SAF com suas futuras receitas, e não um aporte direto dos investidores. Quanto à reforma do Canindé, a cláusula 4.5 afirma que a Revee “investirá na exploração comercial do Canindé como uma nova arena até R$ 500 milhões para adequação”, sem um mínimo garantido. O saneamento das dívidas da associação, por sua vez, compromete-se em até R$ 550 milhões, com a ressalva de que qualquer valor acima disso seria responsabilidade da associação.

Outro ponto crucial é que, uma vez reformado, o estádio será gerido pela Revee, que repassará parte da receita líquida para a SAF. A Associação Portuguesa de Desportos, proprietária do Canindé, não receberá nada diretamente dessa exploração, com a receita beneficiando primariamente a SAF e, consequentemente, seus acionistas majoritários.

A Estratégia por Trás dos Números Inflados

A apresentação de números inflados serve a um propósito estratégico: pressionar conselheiros e associados a aprovarem a venda do futebol, sob a promessa de um futuro bilionário. Contudo, uma vez constituída a SAF, a expectativa pública de um grande volume de dinheiro em caixa se choca com a realidade do investimento contratual, que para o futebol propriamente dito, se restringe aos R$ 30 milhões iniciais.

Os R$ 120 milhões em financiamento são, de fato, dívida que a SAF pagará com suas próprias receitas – direitos de transmissão, patrocínios, bilheterias e vendas de jogadores. A grande jogada dos investidores reside na exploração comercial do Canindé por 50 anos, em uma localização privilegiada de São Paulo, com um desembolso relativamente baixo para a recuperação futebolística inicial da Portuguesa.

A Posição da Portuguesa

Em nota, a Portuguesa reiterou que “a reconstrução da Portuguesa, passando por esses três pontos fundamentais, engloba um investimento de R$1.2 bilhão, conforme consta no contrato assinado”. O clube explicou que R$ 560 milhões são referentes à dívida, R$ 500 milhões ao projeto do Novo Canindé e R$ 150 milhões em até cinco anos para o futebol. A Lusa também afirmou que, em 2025, foram gastos R$ 45 milhões no futebol, superando os R$ 30 milhões obrigatórios em contrato, demonstrando um compromisso maior do que o mínimo estabelecido. A missão, segundo a nota, é “reconstruir um clube icônico do futebol brasileiro”.

Apesar da situação calamitosa em que a Portuguesa se encontrava antes da SAF, a narrativa de uma Lusa bilionária, embora eficaz para a venda, revela-se, sob a ótica contratual, uma promessa de aporte direto significativamente mais modesta, com o maior potencial de retorno para os investidores concentrado na infraestrutura e exploração comercial do Canindé.

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