A menos de dois anos para a Copa do Mundo de 2026, que será sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, os preços dos ingressos já geram polêmica. Com valores chegando a US$ 700 para jogos da fase de grupos e impressionantes US$ 8.680 para um assento na final, a FIFA justifica sua estratégia como um reflexo da ‘prática de mercado existente para grandes eventos de entretenimento e esportivos’ nos países anfitriões. Essa postura, no entanto, expõe uma profunda dicotomia na percepção do valor do esporte entre fãs americanos e europeus.
A Dicotomia Transatlântica dos Preços
Em 2016, uma revolta de torcedores do Liverpool na Inglaterra forçou o clube a reduzir o preço de seus ingressos, após protestos contra um valor de 77 libras (cerca de US$ 103). A ação coletiva, que viu 10 mil fãs abandonarem o estádio no 77º minuto de um jogo, foi um marco que os proprietários americanos do clube, John W. Henry e Tom Werner, não esqueceram. Nove anos depois, o ingresso mais caro para ver o Liverpool é de 61 libras (aproximadamente US$ 82).
Em contraste, Ian Ayre, ex-CEO do Liverpool e agora à frente do Nashville SC, time da Major League Soccer (MLS) nos EUA, testemunhou a venda de ingressos para um jogo da temporada regular por centenas de dólares sem protestos significativos. Ayre notou que, nos EUA, há uma aceitação crescente de que ‘se você quer o ingresso mais disputado da cidade, ele terá um preço’. Essa diferença cultural e econômica é central para entender a precificação da Copa do Mundo de 2026.
O Modelo Americano: Economia e Demanda
Nos Estados Unidos, o aumento dos preços dos ingressos esportivos é um fenômeno de longa data. De 1991 a 2023, o custo médio para assistir a um jogo da NFL ou MLB cresceu cerca de 300%. Um ingresso médio da NFL hoje custa mais de US$ 300, e o mais barato é cerca de US$ 169, superando a maioria dos ingressos da Premier League.
Especialistas apontam múltiplos fatores para essa ascensão: o crescimento econômico e o aumento da renda real dos americanos, especialmente dos 10% mais ricos, que estão mais dispostos a pagar por experiências. Além disso, a população dos EUA cresceu significativamente, enquanto ligas como a NFL, NBA e MLB não adicionaram novos times e, em alguns casos, construíram estádios menores com mais assentos premium. Essa combinação de demanda crescente e oferta limitada (especialmente de assentos baratos) impulsiona os preços.
A inovação da precificação dinâmica, introduzida pelo San Francisco Giants em 2009, também é crucial. Este modelo ajusta os preços com base na demanda real ou esperada, permitindo que as equipes capitalizem sobre a disposição dos fãs em pagar mais. Nos EUA, jogos são vistos como entretenimento a ser comprado e consumido, e as equipes como negócios com direito a maximizar lucros. A falta de regulamentação sobre a revenda de ingressos (cambismo) também permite que revendedores comprem ingressos baratos e os revendam com lucro, desmotivando os clubes a manterem os preços baixos.
Futebol Europeu: Um Bem Comunitário
Em contraste, no Reino Unido e em grande parte da Europa, clubes de futebol são frequentemente vistos como




