O presidente do São Paulo Futebol Clube, Júlio Casares, enfrenta um cerco político sem precedentes. Às vésperas de uma votação crucial que pode definir seu afastamento, marcada para esta sexta-feira, dia 16 de janeiro, lideranças de movimentos internos do clube manifestam publicamente apoio ao impeachment do dirigente. Casares é alvo de um inquérito da Polícia Civil que apura um suposto esquema de desvio de verbas do clube.
O Estadão apurou que ao menos quatro importantes grupos políticos do São Paulo retiraram seu apoio ao mandatário, fragilizando significativamente sua posição. A votação presencial ocorrerá no Conselho Deliberativo, na sede social do Morumbi.
O Cerco Político se Fecha: Lideranças Retiram Apoio
Entre os mais recentes a desembarcar da coalizão de apoio a Casares está o Movimento Sempre Tricolor (MST), liderado por Antonio Donizete Gonçalves, conhecido como Dedé, diretor-geral do clube social. “Nós, do MST, somos veementemente contra qualquer tipo de ato ilícito. Votaremos a favor da suspensão do presidente”, declarou Dedé nas redes sociais.
Outro grupo de peso que abandonou a gestão é a Vanguarda Tricolor. Sua principal liderança é o vice-presidente do São Paulo, Harry Massis Junior, que assumiria a presidência em caso de afastamento de Casares. Massis Junior confirmou a aliados que votará pelo impeachment.
Anteriormente, a Legião Tricolor, do ex-diretor de futebol Carlos Belmonte – que pediu demissão após a goleada de 6 a 0 para o Fluminense –, e o Grupo Participação, liderado pelo próprio Casares, já haviam retirado o apoio formal. O Grupo Participação, inclusive, liberou seus membros do Conselho Deliberativo para votarem conforme sua própria convicção.
O Processo de Afastamento e Suas Implicações
A votação do impeachment será realizada de forma presencial. Há uma preocupação por parte da oposição de que o período de férias possa provocar um esvaziamento do Conselho, favorecendo a manutenção de Casares. No entanto, a expectativa de uma renúncia prévia, embora desejada por adversários, não é considerada provável.
Para o afastamento provisório do presidente, o Estatuto do São Paulo exige 75% dos votos dos conselheiros aptos, o que representa no mínimo 191 dos 251 membros. Caso o afastamento seja aprovado pelo Conselho Deliberativo, uma Assembleia Geral de sócios do clube deverá ser convocada em até 30 dias para ratificar ou rejeitar a decisão, necessitando de maioria simples.
Na última terça-feira, o Conselho Consultivo emitiu um parecer contrário ao impeachment, mas este documento, na prática, não é determinante, servindo apenas como embasamento para a discussão dos votos. Se Casares for afastado pelo Conselho e pela Assembleia, ele também será banido do clube. Em caso de renúncia, ele se manteria no Conselho Consultivo, situação similar à do ex-presidente Carlos Miguel Aidar, que deixou o cargo em 2015 sob acusações de desvio de recursos.
Escândalos e Dívidas: A Raiz da Crise
Eleito em dezembro de 2020, Júlio Casares teve uma trajetória marcada por conquistas como o Paulistão de 2021 e a inédita Copa do Brasil em 2023. Com amplo apoio no Conselho, conseguiu aprovar a possibilidade de reeleição. Contudo, a situação mudou drasticamente. O clube acumulou insucessos esportivos, enfrentou uma grave crise no departamento médico e viu a dívida total ultrapassar a marca histórica de R$ 950 milhões.
A instabilidade política se aprofundou com episódios recentes, como o vazamento de um áudio que revelou um suposto esquema clandestino de comercialização de um camarote no MorumBis durante shows. Diretores flagrados na gravação, Mara Casares e Douglas Schawrtzmann, afastaram-se dos cargos, e o Ministério Público de São Paulo solicitou a abertura de inquérito policial. O clube também iniciou sindicâncias interna e externa para apuração.
Paralelamente, a Polícia Civil de São Paulo investiga diretores por supostos desvios de verba em vendas de atletas. As investigações miram 35 saques em dinheiro vivo das contas do São Paulo, que somam R$ 11 milhões. Esses escândalos fortaleceram a oposição, que agora busca o afastamento de Casares e mira as eleições de 2026.
A defesa de Júlio Casares, representada pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, informou que “todas as movimentações financeiras de Júlio, contidas nos relatórios do Coaf, possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com a evolução de sua capacidade financeira”. A nota acrescenta que Casares exerceu funções de alta direção na iniciativa privada com boa remuneração antes de assumir a presidência do clube e que a origem do lastro das movimentações será esclarecida ao longo da investigação, reiterando que a defesa ainda não teve acesso ao inquérito policial.





