A Polícia Civil de São Paulo já tinha o São Paulo Futebol Clube em seu radar desde o início do ano passado, quando investigava irregularidades no contrato do Corinthians com a casa de apostas Vai de Bet. A apuração inicial sobre o rival alvinegro, que resultou no indiciamento do então presidente Augusto Melo por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro, agora se entrelaça com as novas denúncias de desvios financeiros no Tricolor.
O delegado Tiago Fernando Correia, da 3ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro (Dicca), responsável por ambos os casos, identificou uma conexão crucial. Um nome investigado no caso Vai de Bet, o empresário Danilo Lima de Oliveira, conhecido como “Tripa”, atuou como agente do atacante Juan Santos, ex-jogador do São Paulo, em 2024.
A Teia de Conexões: Do Corinthians ao São Paulo
Danilo Lima de Oliveira, o “Tripa”, é uma figura central nesta complexa investigação. Ele foi apontado em colaboração premiada de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach – assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto de Guarulhos – como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo Gritzbach, a facção utilizava empresas de gestão de carreira de jogadores para lavar dinheiro de atividades ilícitas. “Tripa” é proprietário da Lion Soccer Sports, que agenciava a carreira de Juan, e teria participação na UJ Football Talent Intermediação, empresa também apontada como braço do PCC.
A UJ Football Talent movimentou quase R$ 26 milhões entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2022, com R$ 280 mil transferidos para a Lion Soccer Sports. “Tripa” é suspeito de agir a mando de Anselmo Bechelli Santa Fausta, o “Cara Preta” ou “Magrelo”, um dos maiores traficantes do PCC. Além de Juan, o empresário também agenciou Matheus Araújo e Murillo, ex-jogadores do Corinthians, e foi visto ao lado de Marino Rosa e Thiago Laurindo, que atuaram com Augusto Melo no União Barbarense e mantiveram proximidade com o clube alvinegro.
Desvios Financeiros no São Paulo e o Alerta do COAF
A investigação no São Paulo Futebol Clube teve início com uma denúncia anônima, cujos fatos narrados coincidiram com apurações preliminares do delegado Tiago Correia. Desde outubro do ano passado, a Polícia Civil apura a realização de 35 saques em dinheiro vivo das contas do clube, totalizando R$ 11 milhões, entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025. Esses saques foram feitos em bancos como Bradesco e Rendimento, e as operações foram classificadas como “atípicas” em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O atacante Juan Santos, revelado pelo São Paulo, foi vendido ao Göztepe, da Turquia, em agosto de 2024, rendendo R$ 5 milhões ao clube. Atualmente, o jogador é agenciado por outra empresa. À época das acusações, “Tripa”, por meio de sua assessoria, declarou que “sempre esclareceu todos os fatos que foram objeto de ampla investigação”, desconhecia o teor da “suposta delação” e negou “qualquer envolvimento em atos e/ou negociações ilícitas, muito menos envolvimento com o crime organizado”.
Impacto Político e o Futuro da Diretoria
As graves acusações de desvios e as conexões com o crime organizado têm gerado forte repercussão interna no São Paulo. Conselheiros opositores têm cobrado o Conselho Deliberativo pela discussão de um possível afastamento do presidente Júlio Casares. A votação sobre o impeachment do presidente está marcada para a próxima sexta-feira, 16 de junho, no salão nobre do MorumBis, prometendo um desfecho tenso para a crise que abala o clube paulista.





