A maior Copa do Mundo de todos os tempos tem seu pontapé inicial hoje (11), com o confronto entre México e África do Sul no icônico Estádio Azteca. A bola rola às 16h (horário de Brasília), mas a festa começa mais cedo, às 14h30, com uma cerimônia de abertura que promete encantar o público com performances de artistas como Shakira, J Balvin e Maná.
O Mundial de 2026 se destaca por sua grandiosidade: 48 seleções disputarão a taça em 16 cidades espalhadas pelos Estados Unidos, México e Canadá. No entanto, a magnitude do evento vem acompanhada de uma série de desafios e tensões que testaram a organização nos últimos meses, desde embates diplomáticos até questões climáticas e logísticas complexas.
Diplomacia em Campo: EUA e Irã em Rota de Colisão
Um dos conflitos mais delicados envolve a relação entre Estados Unidos e Irã. Em meio a uma guerra entre os países, restrições de entrada para cidadãos iranianos foram impostas pelos EUA, gerando problemas para a delegação. Em dezembro, os Estados Unidos negaram vistos a membros sêniors da federação iraniana para o sorteio em Washington, levando o Irã a boicotar o evento.
Sem relações diplomáticas diretas, a seleção iraniana precisou treinar na Turquia para solicitar os vistos americanos. Na véspera da viagem para o México, os 26 jogadores finalmente foram autorizados, mas ao menos 14 membros da comissão técnica e administrativa tiveram seus pedidos negados. A federação iraniana acusou os EUA de comportamento vingativo, e a delegação foi informada de que precisaria entrar e sair do território americano no mesmo dia dos jogos, o que levou à transferência de sua base do Arizona para a Cidade do México.
A situação pode escalar dentro de campo: se ambas as seleções avançarem como segundas colocadas em seus grupos, um confronto entre Irã e EUA pode ocorrer nas oitavas de final, em Arlington, Texas. A FIFA, contudo, garantiu a participação do Irã, após receber confirmações dos três governos anfitriões de que todas as seleções classificadas poderão competir.
O Desafio Climático: Calor e Tempestades Ameaçam Jogos
O clima é outra grande preocupação. A Copa do Mundo de Clubes de 2025, realizada nos EUA, já serviu de alerta, com tempestades causando atrasos e jogadores relatando desconforto com o calor. Em Nova York, um alerta oficial chegou a classificar a onda de calor como “mortal” para quem passasse longos períodos ao ar livre.
Um levantamento da Climate Central aponta que 97 das 104 partidas do Mundial de 2026 podem sofrer interferência climática, seja por calor, chuva ou tempestades. Cidades como Houston registraram índices de calor perigosos em quase três quartos dos dias de junho e julho na última década. Especialistas alertam que temperaturas acima de 28°C representam risco de doenças relacionadas ao calor para atletas e torcedores.
Para mitigar os riscos, a FIFA adotou um protocolo que prevê a interrupção das partidas se tempestades ou descargas elétricas forem detectadas num raio de até 13 quilômetros dos estádios, com a retomada ocorrendo apenas 30 minutos após o último raio. Miami, Nova York, Nova Jersey e Filadélfia são as cidades que mais preocupam. Inclusive, as autoridades mexicanas já emitiram alerta laranja para chuvas intensas na Cidade do México no dia da abertura.
Logística Complexa: Gramados e Estrutura sob Pressão
A preparação dos campos de jogo representou um dos maiores desafios logísticos. A Copa América 2024, que utilizou os mesmos estádios do Mundial, revelou problemas. O técnico da Argentina, Lionel Scaloni, criticou publicamente a troca do gramado do AT&T Stadium apenas 48 horas antes de uma partida. Lesões e queixas sobre a qualidade dos campos foram recorrentes entre jogadores como Vinícius Jr. e James Rodríguez, e técnicos como Ricardo Gareca.
Para 2026, a FIFA exigiu gramado natural em todos os 16 estádios. A solução encontrada foi uma superfície híbrida, com 95% de grama natural e 5% de fibras sintéticas. Em cada local, foram instalados 15 centímetros de areia e outros materiais de base sobre o campo artificial existente antes de rolar o novo gramado. Cinco sedes com cobertura fechada precisaram de luzes LED ultravioleta para garantir a sobrevivência da grama sem luz solar direta. Além disso, sistemas subterrâneos de irrigação, ventilação e drenagem foram exigidos em todos os locais.
O AT&T Stadium, no Texas, demandou 45 mil horas combinadas de trabalho apenas para a instalação do novo gramado. Estádios em Nova York, Atlanta, Houston, Dallas, Los Angeles, Seattle e Boston tiveram seus campos completamente trocados. Alguns locais removeram assentos para acomodar as medidas oficiais dos campos de futebol, maiores que os de futebol americano. Para garantir a uniformidade da performance da bola, a FIFA contratou universidades americanas para desenvolver sistemas que assegurassem um padrão em todos os campos.
A Copa Mais Cara da História: Ingressos e Acessibilidade
O Mundial de 2026 projeta uma receita recorde entre US$ 10,9 bilhões e US$ 11 bilhões (cerca de R$ 62 bilhões), um aumento de 56% em relação ao Qatar 2022. Os preços dos ingressos acompanham essa ambição, variando entre US$ 100 e US$ 6.370 (R$ 570 e R$ 36,3 mil), com alguns bilhetes sofrendo aumentos de mais de 1.000% em comparação com a Copa anterior.
A principal mudança foi a adoção do sistema de preço dinâmico, que ajusta os valores em tempo real conforme a demanda, um modelo já comum em companhias aéreas. A organização Football Supporters Europe já pediu oficialmente à FIFA a suspensão da venda, classificando os preços como extorsivos, e veículos como a BBC solicitaram a intervenção de federações nacionais.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, defende os preços, argumentando que a entidade gera receita em apenas um mês a cada quatro anos. Um torcedor que planeje acompanhar sua seleção da estreia até a final gastará, na categoria mais econômica, cerca de R$ 19,7 mil apenas em ingressos. Nos setores mais caros, o custo pode superar R$ 70 mil. O transporte também sentiu o impacto, com corridas de Uber que normalmente custam R$ 73,50 podendo chegar a R$ 558 em dias de jogo. Críticos avaliam que esse modelo pode afastar o torcedor popular dos estádios, transformando a Copa em um evento dominado por turistas de alto poder aquisitivo e consumidores corporativos.
Brasil em Campo: Estreia e Desfalque de Última Hora
A seleção brasileira está no Grupo C e fará sua estreia na Copa do Mundo de 2026 no sábado (13), às 19h, contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Após o primeiro confronto, os brasileiros voltam a campo nos dias 19 e 24 de junho para enfrentar Haiti e Escócia, respectivamente.
A preparação para a estreia teve uma baixa de última hora. O lateral-direito Wesley foi cortado da delegação após se lesionar no amistoso contra o Egito, no último sábado (06). Para ocupar a vaga no grupo comandado por Carlo Ancelotti, foi convocado o meio-campista Ederson, ex-jogador da Atalanta.





