A cena se repetiu: aos 34 minutos do segundo tempo, a Argentina perdia por dois a zero para o Egito e a eliminação na Copa do Mundo parecia iminente. Mas, Lionel Messi, mais uma vez, desafiou a lógica. Com uma assistência e um gol decisivo, o astro orquestrou uma virada improvável, selando um 3 a 2 no placar e a continuidade de um legado. No entanto, a genialidade de um dos maiores jogadores de todos os tempos não explica sozinha o sucesso recente da Argentina, que ostenta o título mundial de 2022, uma semifinal em 2026 e as duas últimas edições da Copa América (2021 e 2024).
Essas conquistas são, obviamente, um golpe duro para muitos brasileiros, dada a rivalidade histórica que pulsa no futebol entre os dois países. Contudo, parte da receita de êxito dos nossos hermanos pode ser a chave para o reerguimento de uma Seleção Brasileira que não levanta um mundial desde 2002, há longos 24 anos.
O Espírito Argentino Contra a Crise Brasileira de Identidade
Dos 26 atletas convocados pelo técnico Lionel Scaloni para a Copa de 2026, 24 atuam no exterior. Apenas dois jogam na Argentina: o experiente volante Paredes (Boca Juniors) e o lateral-direito Montiel (River Plate). Ainda assim, quando o grupo se reúne para vestir a camisa albiceleste, a sinergia com a torcida é visceral e palpável. Enquanto a arquibancada age como um 12º jogador, os atletas em campo se entregam como verdadeiros torcedores, lutando com uma paixão inesgotável pela vitória até o apito final. Para eles, o futebol é uma extensão do orgulho e da cultura do país, gerando um senso de responsabilidade extremo nos jogadores, que se veem como legítimos representantes do povo.
Em contrapartida, a Seleção Brasileira parece mergulhada em uma profunda crise de identidade. A cada fracasso em Mundiais, a resposta tem sido a tentativa de reproduzir fórmulas europeias. Padrões táticos copiados, com foco na força física e transição direta, em detrimento do talento individual, do improviso e da alegria – qualidades que historicamente definiram os craques brasileiros, mas que estão sendo perdidas à medida que jovens talentos são vendidos precocemente para clubes estrangeiros.
Essa perda de essência não passa despercebida pela imprensa internacional. O jornal Olé, da própria Argentina, diagnosticou após a eliminação brasileira para a Noruega que “a modernidade varreu a criatividade e a alegria do futebol brasileiro”. O Kicker, da Alemanha, lamentou que a Seleção Brasileira se transformou em “um mito distante do passado”. Já o Diário As, da Espanha, classificou o momento atual como o “fundo do poço de um ciclo sombrio”.
A Estabilidade de Scaloni e o Rodízio de Comandantes no Brasil
A longevidade dos trabalhos de cada treinador é um fator crucial para as campanhas tão distintas de Brasil e Argentina nas últimas Copas. Scaloni, que já integrava a comissão técnica de Jorge Sampaoli em 2018, assumiu oficialmente o comando da Argentina no ano seguinte. Entre seus muitos méritos, destaca-se a decisão de trazer importantes ex-jogadores da albiceleste para compor sua comissão: Roberto Ayala, Pablo Aimar e Walter Samuel. Com a experiência de quem brilhou em campo, os quatro auxiliam na renovação da equipe, integrando jovens talentos com veteranos. Além disso, como argentinos, eles garantem que o time mantenha a identidade de jogo do país, forjada pela fusão entre a sensibilidade artística do talento das ruas e a agressividade competitiva de quem encara cada partida como uma final de Copa do Mundo.
Por outro lado, a Seleção Brasileira viveu uma verdadeira dança das cadeiras, com quatro treinadores no ciclo entre as Copas de 2022 e a atual: o interino Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. O italiano, primeiro treinador estrangeiro a comandar a equipe verde-amarela em uma Copa do Mundo, assumiu a função apenas em maio de 2025. Com pouco tempo de trabalho em comparação a Scaloni, Ancelotti cometeu diversos erros no Mundial e pode ser apontado como um dos responsáveis pela eliminação nas oitavas de final, com a equipe registrando apenas 34% de posse de bola diante da Noruega, abdicando completamente do protagonismo de quem é o único pentacampeão mundial.
Messi, o Maestro Imortal, e o Adeus Sem Glória de Neymar
A qualidade do elenco, inegavelmente, também explica as fases distintas de cada seleção. Na Argentina, a sustentação do time reside em um meio-campo talentoso e combativo, composto por Rodrigo De Paul, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Leandro Paredes, cujo entrosamento vem desde a Copa passada. Já no Brasil, Casemiro, embora não seja o único culpado, tornou-se o símbolo da insegurança da torcida, desde a estreia contra Marrocos até a queda diante de Haaland e os demais vikings.
Na comparação entre os maiores craques da atual geração, a Argentina também leva grande vantagem. Eleito o melhor do mundo por oito vezes na carreira, Messi é protagonista do futebol há pelo menos duas décadas. E mesmo aos 39 anos, é, sem dúvidas, o craque da Copa do Mundo de 2026 até o momento. Ele continua sendo uma peça central na engrenagem de Scaloni: joga solto, é o capitão, artilheiro da competição com oito gols e líder absoluto do elenco, tanto no vestiário quanto dentro do campo.
Já Neymar, cinco anos mais jovem que o amigo, tem inegáveis bons serviços prestados à Seleção Brasileira. É o maior artilheiro da história (80 gols em 130 partidas) e conquistou dois títulos oficiais: a Copa das Confederações (2013) e as Olimpíadas (2016). Mas nunca foi eleito o melhor do planeta. E em quatro Mundiais disputados, não houve troféus. Em 2026, o camisa dez sofreu uma lesão grau dois na panturrilha antes do início do torneio e atuou por poucos minutos. Na que foi a última Copa da carreira, a despedida do craque foi melancólica.
Evidentemente, graças à paixão do povo pelo esporte, o Brasil segue produzindo craques em série: Vini Jr., Rodrygo e Estevão, por exemplo, ainda terão idade para vestir a amarelinha na próxima Copa. Mas não dá mais para se contentar apenas com o peso da camisa. É preciso organização fora das quatro linhas para que toda essa vocação possa eclodir e, a partir daí, gerar bons frutos também coletivamente. Por isso, alerta ligado desde já: o ciclo para a Copa do Mundo de 2030 começou e é a nossa vez de virar o jogo. Porque enquanto nós vivemos, há décadas, de contar estrelas no peito, os argentinos aprenderam a empilhar taças no gramado.




