O futebol, em sua essência, vive um momento de intensa pressão e discussões sobre seus valores. Recentemente, após a suada vitória do Palmeiras por 1 a 0 sobre o Cerro Porteño, resultado que confirmou o favoritismo e qualificou o atual vice-campeão continental para as quartas de final da Libertadores, o técnico Abel Ferreira, figura central no cenário esportivo brasileiro, fez um desabafo que reverberou. Pressionado por parte da própria coletividade palmeirense devido ao desempenho considerado “pobre” em relação ao alto custo da folha salarial, Abel vociferou:
“O futebol, de modo geral, está doente. Por quê? Porque, se não ganhar, és fraco. Se não ficares em primeiro, não prestas. O segundo é uma merda, e vamos por aí adiante. O futebol não é só o futebol brasileiro. O futebol, de uma forma geral, está doente. Andamos todos obcecados com o sucesso, com o primeiro lugar, e pouca gente valoriza o esforço daqueles que tentam sempre para lá chegar”, declarou o treinador, desviando o foco de problemas técnicos e táticos apresentados pela equipe em campo.
A declaração de Abel Ferreira encontra eco em muitos. O jornalista Vitor Guedes concorda que o futebol está adoecido, mas ressalta a importância da memória e do caráter para entender a profundidade dessa doença. A dor, segundo Guedes, não pode ser seletiva. O problema vai além da obsessão pelo sucesso, manifestando-se em uma série de comportamentos e reações que minam a essência do esporte.
A Lógica da Vitória a Qualquer Custo e a Hipocrisia da Crítica Seletiva
A enfermidade do futebol se agrava quando a busca incessante pela vitória se sobrepõe à ética e ao respeito. O esporte está doente quando a incapacidade de aceitar a derrota leva a “colocar asterisco” em títulos conquistados por adversários, desvalorizando o mérito alheio e buscando diminuir conquistas legítimas. Essa seletividade se torna ainda mais evidente quando há um clamor por justiça em relação a erros claros de arbitragem que prejudicam o próprio time, mas uma postura de indiferença ou até de defesa do árbitro quando o mesmo tipo de erro beneficia a equipe ou prejudica um rival de forma flagrante. A situação de um pênalti escandaloso sonegado ao adversário e a subsequente defesa pública do juiz, alegando perseguição, é um exemplo gritante dessa “dor seletiva”. A doença também se manifesta na disseminação de teorias conspiratórias, onde se mente no microfone sobre a existência de um “esquema” para impedir o bicampeonato, e, após a conquista do título, não há um pedido de desculpas ao “sistema” inexistente, tratando a todos como idiotas.
Comportamentos Inadequados e o Desrespeito no Campo e Fora Dele
A paixão pelo futebol, por vezes, é ofuscada pelo destempero e pela falta de respeito. O esporte adoece quando profissionais reagem a decisões da arbitragem com gestos vulgares e grosseiros, chacoalhando a genitália em direção à própria torcida, como um adolescente mal-educado. Essa falta de controle se estende aos gritos e xingamentos acintosos após cada decisão que não agrada, mesmo quando o apitador está correto, demonstrando uma incapacidade de respeitar outros seres humanos e as regras do jogo. A situação se agrava quando a conduta destemperada extrapola o campo e invade o espaço da imprensa, como no episódio em que um treinador toma o celular de um repórter que apenas exercia seu trabalho, registrando o momento. A enfermidade atinge um ponto crítico com respostas machistas e patéticas a perguntas de jornalistas mulheres, ignorando completamente o teor das indagações e demonstrando um acesso de descontrole inadmissível.
Contradições no Mercado e a Pressão Sob o Apito
A doença do futebol também se revela nas inconsistências e na falta de coerência de conduta. É doentio quando um profissional exerce seu direito de reconsiderar uma proposta financeira vinda do exterior, mas, ao permanecer em seu cargo, critica publicamente outro profissional por fazer o mesmo, como no caso em que um jogador desiste de um acerto com o Palmeiras após ter tudo apalavrado. Dentro de campo, a enfermidade se manifesta em estratégias coordenadas e planejadas, onde uma comissão técnica faz rodízio para xingar e colocar pressão ostensiva sobre a arbitragem, na esperança de obter vantagens nas decisões do apito. Por fim, o desrespeito ao adversário, mesmo um tradicional aliado com torcida coirmã, é um sintoma claro da doença, exemplificado ao tratar o gramado de um histórico estádio rival como uma “plantação de batatas” após uma derrota, demonstrando desprezo pelo patrimônio e pela história do rival.
A Cura Exige Memória, Caráter e Autocrítica Generalizada
Vitor Guedes reitera que o futebol está, de fato, doente. No entanto, a verdadeira cura não virá enquanto a “dor for seletiva” e a autocrítica for evitada. É fundamental que todos os envolvidos – treinadores, jogadores, diretores e torcedores de todas as cores – reflitam sobre suas próprias ações e reações. A valorização do esforço, como Abel Ferreira defende, deve vir acompanhada de um comportamento ético e respeitoso. A reflexão do técnico português é válida, mas deve ser um convite à autocrítica generalizada para que o esporte possa, de fato, se curar de suas mazelas.
Coluna Vitão Raiz – por Vitor Guedes.



