Gianni Infantino, o presidente da Fifa, continua a ser a figura central do futebol mundial, mesmo diante de uma considerável pressão. Recentemente, a diretoria da entidade, após uma reunião em Rabat, capital do Marrocos, reafirmou sua confiança unânime no mandatário. Esta manifestação de apoio ocorre em um momento crítico, com a crise desencadeada pelos planos da Fifa de vender uma parte minoritária dos direitos comerciais da Copa do Mundo de futebol masculino a investidores privados, em um negócio avaliado em cerca de 4,2 bilhões de dólares (equivalente a R$ 21,4 bilhões).
A situação se agravou em 30 de julho, quando a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que congrega seleções de 55 países, anunciou sua decisão de não participar mais de competições organizadas pela Fifa. Diante desse cenário de tensão e desafios, emerge a questão: quem é Gianni Infantino, o homem que detém o poder máximo no esporte mais popular do planeta? Como foi sua trajetória até alcançar o posto mais alto, e como ele conseguiu consolidar sua posição em meio a tantas controvérsias?
A Ascensão de um Advogado Poliglota
Giovanni Vincenzo Infantino nasceu em 23 de março de 1970, em Brig, Suíça, filho de pais italianos. Ele revelou ter sofrido discriminação na infância devido à sua origem. Formado em Direito pela Universidade de Friburgo, na Suíça, iniciou sua carreira em 1997 como secretário-geral do Centro Internacional de Estudos Esportivos da Universidade de Neuchâtel.
Dominando seis idiomas, Infantino ingressou na Uefa no ano 2000, galgando posições até se tornar secretário-geral em 2009. Durante a presidência de Michel Platini na Uefa, ele operava longe dos holofotes, mas se tornou uma figura conhecida dos torcedores europeus ao apresentar regularmente os sorteios da Liga dos Campeões e da Eurocopa, transmitidos ao vivo pela televisão.
O Caminho Turbulento para a Presidência da FIFA
O palco para a ascensão de Infantino à liderança da entidade foi preparado pelo devastador escândalo de corrupção que atingiu a Fifa em 2015. Em um episódio marcante, vários dirigentes foram acusados e sete deles foram presos em um hotel em Zurique, pouco antes do congresso da federação que elegeria seu presidente. Apesar de o então presidente, Sepp Blatter, ter sido reeleito para um quinto mandato, ele renunciou poucos dias depois, o que levou a Fifa a convocar um congresso extraordinário para fevereiro de 2016.
Quando Infantino anunciou sua candidatura, era considerado, ao menos teoricamente, um azarão. O favorito inicial era seu então chefe na Uefa, Michel Platini. No entanto, Platini retirou sua candidatura apenas um mês antes da eleição, após ele e Blatter serem suspensos pela comissão de ética devido a um depósito financeiro controverso. Nos dias que antecederam a votação, o xeique Salman bin Ebrahim al-Khalifa, presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), emergiu como o principal candidato entre os sete concorrentes. Infantino, no entanto, conseguiu uma vitória surpreendente no segundo turno, impulsionado por promessas de reformar a entidade, gravemente abalada por escândalos, e aumentar significativamente os pagamentos às associações afiliadas. Naquele momento histórico, diante dos delegados na arena Hallenstadion, em Zurique, ele declarou: “Vamos restaurar a reputação e o respeito pela Fifa. O mundo inteiro vai nos aplaudir pelo que vamos conquistar no futuro.”
Receitas Recordes e a Expansão da Copa do Mundo
Sob a liderança de Infantino, a Fifa alcançou receitas recordes na última década. O ápice, até o momento, é a Copa do Mundo de 2026, que pela primeira vez contará com 48 seleções e 104 partidas, um aumento significativo em relação às 32 seleções e 64 jogos do Catar em 2022. Esse aumento no número de participantes gerou, inevitavelmente, um incremento substancial nas receitas.
A isso se somou um sistema dinâmico de preços dos ingressos, que levou a aumentos drásticos nos valores. Além disso, a própria Fifa entrou no mercado secundário de bilhetes, cobrando 15% de comissão tanto do comprador quanto do vendedor em cada transação. Embora os números finais das receitas de 2026 só sejam divulgados no relatório final, a expectativa é que superem significativamente os cerca de 5,8 bilhões de dólares registrados em 2022, com Infantino mencionando recentemente um valor que poderia ser o dobro.
Entre Críticas e Acusações: As Polêmicas de Infantino
A gestão de Gianni Infantino, embora marcada por sucessos financeiros, também foi permeada por uma série de polêmicas. Durante a Copa do Mundo, o presidente foi alvo de críticas por suas extensas viagens de avião por todo o território dos EUA para assistir aos jogos. Organizações ambientais estimaram que seus voos geraram entre 300 e 500 toneladas de dióxido de carbono, levantando questões sobre o compromisso da Fifa com a sustentabilidade.
Infantino, por outro lado, distanciou-se da responsabilidade por um dos grandes debates do torneio: o cartão vermelho recebido pelo atacante americano Folarin Balogun. A suspensão da penalidade, após um telefonema do então presidente dos EUA, Donald Trump, que exigiu uma “revisão”, gerou controvérsia. Infantino posteriormente destacou que a decisão havia sido tomada por um comitê independente da Fifa. As pausas para hidratação, que na prática dividiram as partidas em quatro quartos, também foram mal recebidas por muitos torcedores, alterando a dinâmica tradicional dos jogos.
Outros críticos apontaram a falta de envolvimento de Infantino em disputas relacionadas a vistos para torcedores, dirigentes e um árbitro da Somália, bem como no tratamento dado à seleção iraniana nos EUA, que geraram desconforto e problemas logísticos.
Mesmo antes da Copa do Mundo de 2026, Infantino já havia sido protagonista de manchetes negativas em várias ocasiões. Algumas das polêmicas mais conhecidas incluem:
- Poucas semanas após assumir o cargo em 2016, a Comissão de Ética da Fifa o absolveu de acusações relacionadas ao uso de jatos particulares, um caso que gerou questionamentos sobre a transparência da entidade.
- Antes do Congresso da Fifa de 2017, no Bahrein, Infantino destituiu os presidentes da comissão de ética, Hans-Joachim Eckert e Cornel Borbely, sem apresentar justificativa clara, o que foi visto como uma medida para consolidar seu poder.
- Um ano depois, ele chegou a um acordo preliminar com um consórcio financeiro do Oriente Médio e da Ásia sobre os direitos de comercialização da Copa do Mundo de Clubes e de uma Liga das Nações global. O negócio, que segundo relatos teria um valor impressionante de 25 bilhões de dólares, acabou não se concretizando, levantando dúvidas sobre sua viabilidade e negociações.
- Em julho de 2020, o Ministério Público Federal suíço o acusou de ter facilitado o abuso de poder por meio de reuniões secretas com o procurador federal Michael Lauber. Embora o processo tenha sido arquivado três anos depois por falta de provas, o incidente manchou sua imagem.
- Por fim, o sorteio da Copa do Mundo, realizado em dezembro de 2025, gerou muitas críticas quando Infantino entregou ao presidente dos EUA, Donald Trump, o recém-criado Prêmio da Paz da Fifa. Para muitos críticos, esse foi o ponto alto da relação próxima e amplamente questionada entre ele e Trump, levantando preocupações sobre a politização do esporte.
Os problemas mais recentes, que levaram à pressão por sua renúncia e ao ultimato da Uefa, tiveram início com os planos de vender partes dos negócios da Copa do Mundo a investidores privados. A Uefa, inicialmente, condenou a iniciativa e, posteriormente, ameaçou boicotar todas as competições organizadas pela entidade, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina. Mesmo depois de Infantino desistir da ideia, a Uefa endureceu o tom e declarou ter perdido a confiança na atual direção da Fifa. Além disso, a federação europeia de futebol ameaçou, por meio de seus advogados nos EUA, tomar medidas legais contra o que considerou um “acordo duvidoso, negociado a portas fechadas e sem transparência”, intensificando o conflito.
Para consolidar sua posição diante da crise, o presidente da Fifa convocou altos dirigentes da entidade para uma reunião emergencial. Por meio de um comunicado, a Fifa reconheceu que, no contexto dos planos envolvendo investidores privados, “foram cometidos erros” e que o “processo deveria ter sido conduzido de outra forma”. Ao mesmo tempo, foi informado que os participantes reiteraram “total apoio” ao presidente. A Fifa também enfatizou que “não tolerará mais ataques à sua integridade, à sua boa governança e aos procedimentos do Estado de Direito” e que tomará todas as medidas necessárias para proteger seu nome e sua reputação. Assim, Gianni Infantino, o homem que emergiu de um dos maiores escândalos do futebol, continua a moldar o futuro do esporte, navegando entre grandes conquistas financeiras e um mar de controvérsias, reafirmando sua autoridade no cenário global.



