A desistência de Gianni Infantino em prosseguir com seu polêmico plano de abrir a Copa do Mundo e outros eventos da FIFA para investidores privados, embora tenha levado a UEFA a retirar seu boicote, não foi suficiente para dissipar a crise de confiança que abala a entidade máxima do futebol. A confederação europeia, em um comunicado, afirmou que ainda está em processo de “reconstrução da confiança” com a FIFA, sinalizando que a turbulência está longe de terminar e que o futuro político do atual presidente é incerto.
Este cenário de instabilidade se manifesta em um momento crucial para o futebol feminino, com a Copa do Mundo Sub-20 na Polônia (5 de setembro), a Copa do Mundo Sub-17 no Marrocos (outubro) e as eliminatórias para a Copa do Mundo feminina do próximo ano no Brasil se aproximando. A administração desses torneios torna-se mais complexa diante do caos administrativo, um ambiente longe do ideal para as atletas e equipes envolvidas.
A Crise de Confiança e o Boicote Europeu
Com a UEFA apresentando uma frente unificada, a expectativa é que a maioria das federações europeias, se não todas, retirem seu apoio a Gianni Infantino nos próximos dias. A Finlândia foi o primeiro país a manifestar publicamente essa decisão na semana passada, seguida por País de Gales nesta segunda-feira (03/08), que declarou que “não colocar os melhores interesses do futebol em primeiro lugar é uma falha que não podemos aceitar”. A Inglaterra rapidamente seguiu o mesmo caminho.
A Federação Alemã de Futebol (DFB), a maior associação esportiva do mundo, ainda não formalizou a retirada de seu apoio, mas as recentes declarações de seu diretor, Andreas Rettig, sugerem que isso é iminente. Em entrevista à revista Stern, Rettig expressou que as ações de Infantino causaram “uma perda irreparável de confiança” e que o futebol precisa de um “botão de reinicialização”, defendendo uma “cultura diferente” onde a confiança é a “moeda mais valiosa”. Ele ainda acusou Infantino de investir “muito tempo, dinheiro e energia para manter sua estrutura de poder”, com decisões que visavam “consolidar sua própria posição”.
O Caminho para a Eleição e a Pressão por Renúncia
A próxima eleição para a presidência da FIFA está agendada para 18 de março de 2027, durante o 77º Congresso da entidade, em Rabat, Marrocos. Infantino buscará a reeleição para seu último mandato de quatro anos, necessitando de 106 votos dos 211 países-membros. A UEFA, com seus 55 votos, detém uma parcela significativa do poder de decisão.
A pressão sobre Infantino pode se intensificar rapidamente. Se 19 dos 37 integrantes do Conselho da FIFA, o principal órgão executivo, convocarem uma reunião de emergência nas próximas duas semanas, ele poderá ser pressionado a renunciar. Diversos membros do conselho, incluindo o alemão Bernd Neuendorf, já criticaram publicamente o presidente por não consultá-los sobre seus planos. Além disso, um Congresso Extraordinário da FIFA pode ser solicitado por 43 federações, e a UEFA, sozinha, tem força para tal com seus 55 membros. Para uma destituição por voto de desconfiança, seriam necessários 106 votos.
Paradoxalmente, antes da controvérsia com os investidores privados, Infantino parecia ter sua reeleição garantida. A Copa do Mundo deste verão gerou receitas de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 81 bilhões), um valor muito acima do esperado, que fortaleceria sua posição ao ser redistribuído entre as federações filiadas.
Nomes em Disputa? A Incógnita da Sucessão
Apesar do crescente questionamento sobre a liderança de Infantino, não há candidatos claros para sucedê-lo. As especulações, embora intensas, carecem de solidez no momento, e eventuais candidatos teriam até 18 de novembro para registrar suas candidaturas.
Nomes como Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, foram cogitados devido à sua influência, mas o dirigente catariano descartou a possibilidade, afirmando não ter “absolutamente nenhuma ambição, nenhuma intenção e nenhum interesse no cargo da FIFA”. O Catar, inclusive, é uma das poucas federações a manifestar apoio público a Infantino. O atual presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, considerado o candidato mais óbvio, também não demonstrou interesse.
Outros nomes incluem Victor Montagliani, presidente da Concacaf, que já manifestou interesse na função, mas sua disposição em desafiar Infantino neste momento não é clara. Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol e futura integrante do Comitê Executivo da UEFA, tem apoiadores, mas seu estilo direto pode não ser o mais adequado para uma campanha presidencial na FIFA, e o fato de ser mulher é visto como um obstáculo por alguns observadores.
Finalmente, Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC) e adversário de Infantino em 2016, pode surgir como candidato se a AFC seguir o afastamento da UEFA. O dirigente do Bahrein, que classificou as ações de Infantino como “totalmente inaceitáveis”, enfrenta críticas de organizações de direitos humanos, embora negue as acusações e não tenha sido condenado.





