A ciclista afegã Fariba Hashimi, de 23 anos, conquistou uma medalha de prata histórica na prova feminina de estrada dos Jogos Asiáticos, realizada nesta terça-feira (22) em Aichi-Nagoya, no Japão. O feito representa a primeira medalha do Afeganistão na 20ª edição dos Jogos e a consagra como a primeira mulher afegã a subir ao pódio da competição desde 2002.
A conquista é ainda mais simbólica dada a trajetória de Hashimi. A atleta deixou o Afeganistão após o retorno do Talibã ao poder em 2021, um regime que impõe severas restrições às mulheres. Antes de sua partida, Fariba chegou a se vestir como homem para conseguir treinar e perseguir seu sonho no ciclismo, desafiando as proibições em seu país de origem.
Uma Jornada de Inspiração e Resistência
Após a prova, Fariba Hashimi expressou ao Comitê Olímpico seu desejo de que sua medalha vá além da representação esportiva. “Não estou sozinha. Sei que atrás de mim estão milhões de mulheres, de muitos países, que têm o mesmo sonho. Elas estão comigo”, declarou a ciclista, esperando que sua vitória sirva de inspiração para outras mulheres ao redor do mundo.
O Difícil Início e a Hostilidade
A paixão de Fariba pelo ciclismo começou em 2017, quando ela e sua irmã mais velha, Yulduz Hashimi, descobriram um anúncio de corrida na região de Faryab. Sem nunca terem pedalado antes, as irmãs pegaram bicicletas emprestadas e aprenderam o básico horas antes da competição. Fariba terminou em primeiro lugar, e Yulduz em segundo.
A partir dali, as irmãs passaram a participar de corridas, muitas vezes escondendo suas identidades, usando nomes falsos e roupas masculinas. Elas frequentemente enfrentavam hostilidade, com pessoas jogando pedras e garrafas. Em uma ocasião, Yulduz teve o pulso quebrado após ser atingida por um motorista de riquixá. O próprio pai delas temia pela segurança das filhas. “Uma vez, antes de uma corrida, meu pai me perguntou: ‘Você quer pedalar? Eu estou de acordo, mas tenho medo de que eles possam matar você’. No Afeganistão, esse tipo de liberdade não existe”, relatou Fariba.
Fuga e a Esperança para o Futuro
Em 2020, Fariba e Yulduz foram convidadas para a seleção feminina de ciclismo do Afeganistão. No entanto, o retorno do Talibã ao governo no ano seguinte forçou as duas a deixarem o país e se mudarem para a Itália, separando-as da família. Com o regime talibã, milhões de mulheres afegãs foram submetidas a restrições drásticas em suas liberdades, incluindo educação, circulação e participação esportiva.
Fariba Hashimi expressou sua esperança por um futuro diferente. “Não quero ver a próxima geração chorando porque quer liberdade. Não quero que a próxima geração fuja do país. […] Espero que algo possa mudar para que a próxima geração possa vir de dentro do Afeganistão e competir nos Jogos Asiáticos”, afirmou. A última medalha de prata conquistada por uma mulher afegã nos Jogos Asiáticos havia sido em 2002, em Busan, Coreia do Sul, tornando a conquista de Fariba um marco de resistência e esperança.



