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Eleições 2022 e a Encruzilhada Brasileira: A Paixão pelo Futebol

Eleições 2022 e a encruzilhada brasileira: a paixão pelo futebol

As recentes eleições para presidente e governador ainda aguardam o segundo turno em sete estados, mas o cenário legislativo já traça um panorama preocupante para as próximas décadas. Senadores, deputados federais e estaduais eleitos apontam para um retrocesso em diversas pautas, como o debate pelo fim da escala de trabalho 6 por 1, que já nasce condenado diante dos resultados apocalípticos das urnas. Um fato notável: a questionada confiabilidade das urnas parece ser esquecida quando a extrema-direita se sagra vencedora.

A tragédia de efeito duradouro decretada pelas urnas pode ser sintetizada no estado de São Paulo, o mais rico da nação. Na Terra que elegeu para o Senado um policial expulso da Rota por excesso de mortes, preterindo uma ambientalista, a deputada estadual mais votada, autointitulada antifeminista, agradeceu publicamente pela colonização e afirmou que indígenas são canibais. Paralelamente, o deputado federal mais votado minimiza o papel da educação e ridiculariza a luta de professores contra a precarização do setor. Este cenário, que nos faz acordar às vésperas de 1964, flertando com a Idade Média, sublinha o quão prejudicial é a supervalorização do futebol em detrimento de questões sociais e políticas fundamentais.

Vozes Eleitas: De Agradecimentos à Colonização à Desvalorização da Educação

O cenário político atual, com figuras eleitas que defendem pautas controversas, levanta um questionamento sobre as prioridades da sociedade. A eleição de representantes que minimizam a importância da educação ou proferem discursos que desrespeitam minorias e a história do país contrasta fortemente com a intensidade das paixões esportivas que movem milhões de brasileiros. É um espelho de como a atenção pública pode se desviar de debates cruciais para a consolidação da democracia e dos direitos civis.

Futebol: Paixão Nacional ou Ópio em Tempos de Crise Cívica?

Não se trata, contudo, de um discurso elitista que rotula o futebol como “ópio do povo”. O esporte possui um papel social, econômico, cultural e até familiar inegável, sendo, em muitos casos, um elo de união entre parentes e amigos. A paixão pelo futebol é parte intrínseca da identidade brasileira, e muitos, incluindo este jornalista, têm no esporte uma base para suas escolhas profissionais e até pessoais, como a homenagem ao jogador Basílio no nome de um filho.

Tampouco compactuo com a parcela da mídia que trata o torcedor como cidadão de segunda classe, defendendo a repressão policial. O torcedor é um cidadão como qualquer outro, merecendo a mesma atenção do poder público que frequentadores de shows musicais ou outras manifestações culturais. O mesmo indivíduo que vibra na arquibancada pode ser fã de rock, samba, cinema ou teatro.

A Hierarquia das Urgências: O Que Realmente Importa?

Registradas essas observações, torna-se incompreensível a desproporção entre a organização e a veemência das mobilizações de torcedores – mesmo as justas – e as manifestações de cidadãos contra temas que impactam diretamente a vida de todos. Onde está o mesmo barulho das massas contra o estupro da legislação trabalhista, o fim da escala 6 por 1, a absurda reforma da previdência, ou a piora do transporte público com a privatização da CPTM, questões que afetam diretamente o pai, a mãe, o trabalhador, o estudante, o paciente?

Embora a paixão pelo futebol seja inegável, jamais se pode aplaudir ou concordar com chiliques violentos de torcedores motivados por maus resultados. O futebol é importante, mas não pode ser tratado como questão de vida ou morte quando as urnas decidem o acesso à universidade, a liberdade de expressar a fé, ou o direito de ser quem se é sem ter que esconder a sexualidade.

Memória e Cidadania: Lições do Passado e Desafios do Presente

A fila de 23 anos (1954-1977) do Corinthians não é mais importante que os 15 anos da canalha, assassina e abjeta Ditadura Militar (1964-1985). É fundamental registrar a eterna admiração por corintianos como Vlado Herzog, Dom Paulo Evaristo Arns e Sócrates, e o nojo ad aeternum a figuras como Wadhi Helu e sua claque. Viva a memória!

Todo torcedor é cidadão, e quem se comporta como tal, independente do time, merece respeito e admiração. O nojo ao fascismo, aos fascistas e aos “isentões” que o normalizam é um imperativo moral. Enquanto o Brasileirão retorna nesta quarta-feira (7), o Brasil, de certa forma, retorna ao passado, e isso é incomparavelmente mais importante que qualquer resultado em campo.

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