A dor seletiva do futebol brasileiro e o desabafo de Abel Ferreira
O futebol, paixão nacional e celeiro de emoções, tem sido palco de desabafos que, embora pertinentes em sua essência, por vezes revelam uma dor seletiva. Recentemente, após a vitória magra do Palmeiras por 1 a 0 sobre o Cerro Porteño, em Assunção, resultado que confirmou o favoritismo palmeirense e garantiu a vaga nas quartas de final da Libertadores contra a LDU, o técnico Abel Ferreira fez uma declaração contundente. Pressionado por parte da torcida e da mídia devido ao desempenho abaixo do esperado em relação ao alto custo da folha salarial, o português vociferou:
“O futebol, de modo geral, está doente. Por quê? Porque, se não ganhar, és fraco. Se não ficares em primeiro, não prestas. O segundo é uma merda, e vamos por aí adiante. O futebol não é só o futebol brasileiro. O futebol, de uma forma geral, está doente. Andamos todos obcecados com o sucesso, com o primeiro lugar, e pouca gente valoriza o esforço daqueles que tentam sempre para lá chegar”, afirmou, evitando comentar os problemas técnicos e táticos apresentados pela equipe.
A fala de Abel ressoa com uma verdade inegável: o futebol, de fato, está adoecido. No entanto, a “memória” do esporte e de seus protagonistas nos convida a uma reflexão mais profunda, questionando se a queixa sobre a doença não se manifesta, por vezes, em quem a diagnostica. A doença é coletiva e se manifesta em diversas atitudes de treinadores, jogadores, diretores e torcedores, e não se curará quando a dor for seletiva. Viva a memória!
A Seletividade da Indignação e os Erros de Arbitragem
A doença do futebol se manifesta de diversas formas, e uma das mais evidentes é a seletividade da indignação. O esporte adoece quando se coloca asterisco no título alheio por não saber perder, ou quando se vocifera contra erros de arbitragem que prejudicam o próprio time, mas se faz de desentendido diante de falhas grotescas que beneficiam o seu lado. A memória lembra, por exemplo, de um clássico em que um pênalti escandaloso foi sonegado ao rival, e na coletiva, o juiz foi defendido e até classificado como “perseguido”. A doença também se faz presente quando se mente publicamente sobre um suposto “esquema” para impedir um bicampeonato, e depois, com o troféu nas mãos, não há um pingo de autocrítica ou pedido de desculpas ao “sistema” inexistente.
Comportamentos Inadequados Fora das Quatro Linhas
A enfermidade do futebol também se revela em comportamentos que extrapolam as quatro linhas e atingem a ética profissional e o respeito mútuo. A doença se faz presente quando um profissional exerce seu direito de aceitar uma proposta tentadora do exterior, arrepende-se, e ainda assim consegue permanecer no clube, obrigando o empregador a arcar com os custos da mudança de decisão, mas critica publicamente outro atleta que fez o mesmo, como no caso de Claudinho com o Palmeiras. A falta de decoro atinge o ápice quando, em discordância com uma marcação, um indivíduo vira-se para a torcida e, de forma grosseira, chacoalha a genitália, em um ato de desrespeito e má educação digno de um adolescente inconsequente.
Destempero, Pressão e Desrespeito à Imprensa
O destempero é um sintoma claro do futebol doente. Gritos e xingamentos acintosos a cada decisão que não agrada, mesmo quando o árbitro está correto, são cenas comuns. A situação se agrava quando um treinador, em acesso de descontrole, toma o celular de um repórter que apenas exercia seu trabalho de registrar o ocorrido. Mais grave ainda é quando um profissional usa a pergunta de uma repórter mulher para ignorar o questionamento e proferir uma resposta machista patética. A doença se institucionaliza quando uma comissão técnica orquestra um rodízio para pressionar e xingar a arbitragem na esperança de obter vantagens, desrespeitando outros seres humanos.
O Desrespeito ao Adversário e ao Esporte
Por fim, a falta de respeito ao adversário, mesmo um aliado histórico com torcida coirmã, sublinha a gravidade da doença. O futebol está doente quando, após uma derrota em campo, o gramado de um estádio adversário tradicional é tratado como “plantação de batatas”, demonstrando desprezo pelo patrimônio e pela história do rival. É um lembrete de que a obsessão pela vitória não pode eclipsar a civilidade e o respeito que devem permear o esporte.
O diagnóstico de Abel Ferreira sobre o futebol doente é pertinente, mas a cura exige mais do que apenas lamentar a obsessão pelo sucesso. Ela demanda autocrítica, memória e um compromisso genuíno de todos os envolvidos – treinadores, jogadores, dirigentes e torcedores – em combater as manifestações da doença, mesmo quando elas partem de si mesmos. Viva a memória, pois ela é a chave para a verdadeira recuperação do esporte.
Eu sou o Vitor Guedes e tenho um nome a zelar. E zelar, claro, vem de ZL! É tudo nosso! É nóis aqui no iG com a coluna Vitão Raiz!



