A história do Corinthians, que se estende por mais de um século, é intrinsecamente ligada à palavra “caos”. Considerado um dos clubes mais populares e com maior exposição midiática do mundo, o Timão raramente experimenta momentos de tranquilidade nos bastidores. Contraditoriamente, essas intensas turbulências no Parque São Jorge muitas vezes precedem ou acompanham glórias inquestionáveis dentro das quatro linhas. Em diversos episódios marcantes, o Alvinegro viu crises políticas profundas conviverem diretamente com a conquista de títulos memoráveis. Relembre abaixo alguns desses períodos.
Dinastia em Campo e Bagunça na Política (1997-2000)
O final do século XX marcou um dos períodos mais vitoriosos da história corintiana. Em apenas quatro anos, o clube conquistou três de seus títulos mais importantes: os Campeonatos Brasileiros de 1998 e 1999, e a primeira edição do Mundial de Clubes da FIFA, em 2000. Em campo, uma equipe dominante e repleta de estrelas como Marcelinho Carioca, Freddy Rincón, Vampeta e Dida. Fora dele, porém, o cenário era de efervescência. Parcerias como a do Banco Excel-Econômico (1997) e da Hicks Muse (1999) trouxeram investimentos e polêmicas. A última, apesar de montar a base campeã mundial, deixou um legado de sequelas. O então presidente Alberto Dualib se viu envolvido no “caso Ivens Mendes”, em 1997, quando um áudio vazado revelou uma oferta de R$ 100 mil ao presidente do CONAF. A instabilidade se estendia ao futebol, com sete treinadores diferentes acumulando nove passagens no período. Nem mesmo os jogadores escapavam: Marcelinho Carioca e Freddy Rincón, pilares do meio-campo, protagonizavam brigas constantes nos vestiários.
MSI, Galácticos e o Título de 2005
Em 2004, ainda sob a presidência de Alberto Dualib, o Corinthians embarcou em mais uma aventura financeira com a chegada da Media Sports Investments (MSI), um grupo de investidores europeus liderado pelo empresário iraniano Kia Joorabchian, representante do oligarca russo Boris Berezovski. Para 2005, a MSI promoveu uma janela de transferências histórica, investindo pesado em nomes como Nilmar, Roger Flores, Carlos Alberto, Mascherano e, principalmente, Carlos Tévez, que se tornou o recorde do mercado brasileiro. Apesar de um vestiário completamente dividido em “panelas”, o time conquistou o Campeonato Brasileiro de 2005, em uma temporada recheada de polêmicas, inclusive com a anulação de jogos. Nos bastidores, a turbulência era constante: Kia Joorabchian era frequentemente convocado por Brasília para explicar a origem do dinheiro da MSI, que estava sob investigação. O atrito crescente entre o iraniano e Dualib pelo controle do futebol culminou na saída do grupo.
Crise Financeira e a Virada da “4ª Força” (2015 e 2017)
O Corinthians voltou a ser campeão nacional em 2015, quatro anos após o último título, com um dos times mais elogiados da era dos pontos corridos. Sob o comando de Tite, a equipe encantava com um futebol ofensivo e de troca de passes, contando com estrelas como Cássio, Fagner, Gil, Elias, Renato Augusto e Jadson. No entanto, essa campanha vitoriosa ocorreu em meio a atrasos salariais que chegavam a seis meses, marcando o início da atual crise financeira do clube. A liderança de Tite foi crucial para que o grupo superasse as adversidades econômicas e seguisse rumo ao hexa. Dois anos depois, em 2017, após uma temporada turbulenta com as saídas de Tite e passagens ruins de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira, a diretoria efetivou Fábio Carille, auxiliar técnico das conquistas anteriores. A decisão foi impopular, e o Corinthians foi rotulado como a “quarta força do estado”. Contudo, após uma vitória emblemática sobre o Palmeiras no Paulistão, com direito a expulsão polêmica e gol no final, o time embalou e conquistou o Campeonato Paulista e, surpreendentemente, mais um Campeonato Brasileiro.
Impeachment, Escândalos e Dupla Coroa Inesperada (2025)
Os eventos de 2025 fariam os casos anteriores parecerem exemplos de gestão tranquila. O ano começou com Ramón Díaz no comando técnico e uma base de jogadores como Memphis Depay, Rodrigo Garro e Yuri Alberto. O Alvinegro quebrou um jejum de seis anos sem títulos ao vencer o Palmeiras e levantar a taça do Campeonato Paulista. Nove meses depois, já com Dorival Júnior, o clube bateu o Vasco no Maracanã e conquistou a Copa do Brasil, o primeiro título nacional desde 2017. Contudo, essas glórias foram simultâneas ao período mais conturbado da história política do Corinthians, marcado pelo impeachment do presidente Augusto Melo em seu segundo ano de mandato, devido a irregularidades no contrato de patrocínio máster com a casa de apostas “Vai de Bet”. Augusto tentou permanecer “à força”, invadindo a sala presidencial. Além disso, outros escândalos vieram à tona, como os gastos pessoais de ex-presidentes Duílio Monteiro Alves e Andrés Sanchez com cartões corporativos do clube, incluindo aquisições peculiares como cervejas, cigarros e remédios para disfunção erétil. No elenco, o contrato de Memphis Depay, com bônus futuros, diminuiu a porcentagem das premiações dos títulos que ficariam com o próprio time. Mesmo com o caos institucional e financeiro, o Corinthians provou, mais uma vez, que sua resiliência pode transformar a turbulência em troféus.



