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Carla Medeiros, ‘Tudo É Rio’ e a Alma Corinthiana: Como

Carla medeiros, ‘tudo é rio’ e a alma corinthiana: como

Em um mundo onde as paixões se manifestam de diversas formas, a literatura e o futebol, aparentemente distantes, podem convergir de maneiras surpreendentes. Para muitos, a vida se molda em torno de afetos que ditam o ritmo, a alegria e, muitas vezes, o sofrimento. É nesse cenário que a obra de Carla Medeiros, em especial ‘Tudo É Rio’, se encontra com a intensidade da paixão alvinegra, mostrando que certas verdades só podem ser compreendidas por quem as sente na pele.

A Paixão Alvinegra e a Descoberta Literária

Para o cronista, a paixão pelo futebol, personificada no rio alvinegro do Corinthians, sempre esteve à frente. É um amor umbilical, metonímico, que transcende fases, qualidades ou estações. Diferente de outras paixões como o cinema, o samba ou a literatura – que são ‘poliamores não tóxicos’, acessíveis sem exigências de fidelidade ou sofrimento – o futebol é vivido com uma intensidade que inclui a dor involuntária e a frustração. Foi nesse contexto de devoção que o autor, pós-graduado em literatura e com formação em jornalismo, mas com o coração no campo, conheceu Carla Medeiros. O encontro inusitado ocorreu no Pacaembu, um ‘primeiro lugar de pertencimento no mundo’, onde a paixão em preto e branco do Corinthians se mistura com as cores, por vezes cinzentas, da vida.

Apesar de sua vasta lista de autores admirados – de Eliane Brum a Dostoiévski, de Nelson Rodrigues a Saramago – Carla Medeiros era, até então, um nome desconhecido. A apresentação à autora mineira, com seu sotaque delicioso, se deu em uma Feira do Livro montada na Praça Charles Miller, nos arredores do Pacaembu. Ainda que a atenção inicial estivesse dividida, a semente de uma nova admiração literária foi plantada em um terreno já fértil para paixões.

O Leitor É Quem Faz a Obra

A relação do cronista com a literatura é singular: o que importa é a obra, a leitura e, sobretudo, a interpretação pessoal do que foi lido. Pouco se importa com a intenção original do autor ou se sua leitura é a mesma de quem escreveu. Para ele, o texto ganha vida e significado nas mãos de quem o consome. Nelson Rodrigues, por exemplo, é mais fascinante por sua capacidade de grifar a hipocrisia social com tintas surreais do que por suas posições conservadoras. Essa perspectiva se estende a cineastas e outros artistas: a paixão reside na obra, não necessariamente na figura do criador.

Essa convicção foi moldada por mais de duas décadas escrevendo livros e colunas diárias, onde elogios por ideias não intencionadas e, mais ainda, críticas e ofensas por algo não dito ou insinuado, tornaram-se comuns. A conclusão é que o texto, o filme, a pintura, são de quem lê, de quem vê, de quem interpreta. O que fica é a criação que o leitor faz a partir do material original.

A Voz Feminina em ‘Tudo É Rio’

Embora não acredite em nada 100% não autobiográfico – afinal, o ser humano expressa o que sente e vive, seja na realidade, na fantasia ou no trauma – o cronista ressalta a capacidade de Carla Medeiros em ‘Tudo É Rio’. Ele afirma que poucos autores homens conseguiriam retratar personagens como Lucy e Dalva com a transparência e verossimilhança alcançadas pela escritora. Acredita que a mulher lê o homem muito melhor do que o inverso, o que torna até mesmo o personagem Venâncio mais humano e real do que se fosse criado por um autor masculino como Bukowski, por exemplo.

Essa profunda admiração pela perspectiva feminina na arte não é recente. Criado em um ambiente onde percebeu as diferenças de liberdades e privilégios entre ele e sua irmã, o cronista é fã declarado de grandes vozes femininas da música brasileira, como Rita Lee, Beth Carvalho, Clara Nunes e Elza Soares, e mais tarde, de figuras que desafiaram padrões, como Isadora Ribeiro e Maitê Proença. Ele defende que, para narrar a aldeia do outro, é preciso levar em conta a aldeia de onde se veio e a que se vive, e Carla Medeiros, indubitavelmente, vive em seu texto.

Entre a Arquibancada e as Páginas: A Verdade do Pertencimento

Tanto o futebol quanto a literatura não são mundos à parte; eles se entrelaçam com o repertório e a vivência de cada um. Nenhum crítico pode substituir o olhar do torcedor, nem interpretar a paixão de quem vive a arquibancada. Essa mesma lógica se aplica à Dalva de ‘Tudo É Rio’, e ao corinthiano, maloqueiro e sofredor: ‘só quem é sabe o que é!’. Os outros, simplesmente, ‘nunca serão!’ e jamais compreenderão a profundidade de tal pertencimento.

Em cada experiência, uma lição. E a lição aqui é clara: a leitura de ‘Tudo É Rio’ é urgente. Cada um terá a sua, única e intransferível, diferente até mesmo de uma releitura. O autor, Vitor Guedes, o ‘Vitão Raiz’ da ZL, com seu nome a zelar, faz um convite: mergulhem na obra de Carla Medeiros. Ele próprio anseia por tudo o que ela ainda não escreveu e busca reler e descobrir o que sua ignorância ainda desconhece. Porque na vida, na literatura e no futebol, a verdade reside na intensidade da vivência.

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