O presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino, recuou neste sábado (01/08) do seu polêmico plano de abrir a Copa do Mundo e outros eventos da entidade a investidores privados. A decisão é um reflexo da forte pressão exercida por dirigentes de futebol em todo o mundo, com destaque para a ameaça de boicote da UEFA, a confederação europeia.
Em comunicado oficial, Infantino afirmou que a proposta não seguirá adiante, reconhecendo que ela “criou divisões de tal natureza que, independentemente do nível de apoio, já não atende ao objetivo originalmente estabelecido”. O recuo marca uma vitória para os críticos e levanta questionamentos sobre o futuro político do dirigente na liderança da FIFA.
A Proposta Controversa de Infantino
O projeto de Infantino, revelado publicamente há poucos dias, previa a venda de uma participação nos lucros futuros das Copas do Mundo e de todos os eventos da FIFA a investidores privados. A iniciativa incluía a criação de uma nova subsidiária de 20 bilhões de dólares, a Fifa Forward Enterprise (FFE), que seria responsável pela gestão das competições da entidade, como a Copa do Mundo e a Copa do Mundo de Clubes.
Nessa estrutura, investidores privados teriam pouco mais de 20% de participação na FFE, aportando até 4,2 bilhões de dólares no negócio. Entre os potenciais interessados estava a Thrive Eternal, empresa liderada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Infantino defendia a proposta como uma forma de “turbinar” o financiamento para o desenvolvimento do futebol global, prometendo dobrar o financiamento básico para as federações-membro caso a FFE fosse aprovada.
O Boicote Ameaçador da UEFA
A reação mais veemente veio da UEFA, que reúne seleções de 55 países. Dois dias após a divulgação dos planos, a entidade europeia anunciou que não participaria de competições organizadas pela FIFA enquanto as propostas de abertura a investidores estivessem na mesa. Em nota, a UEFA foi enfática: “A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento”, acusando Infantino de “intimidação” e “coerção”.
A preocupação central da UEFA era que a entrada de investidores privados pudesse submeter o esporte à obrigatoriedade de gerar lucros, colocando federações e atletas sob pressão. “O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro”, argumentou a confederação, ressaltando que “há coisas que simplesmente são importantes demais para serem vendidas”.
Rejeição Global e Unidade no Futebol
A oposição aos planos de Infantino não se restringiu à Europa. Confederações regionais em todo o mundo afirmaram ter sido pegas de surpresa, e membros da alta cúpula da FIFA acusaram o presidente de ter enganado a todos. A Confederação Asiática de Futebol (AFC), que representa 47 países-membros, saudou a retirada da proposta, enfatizando a necessidade de que qualquer iniciativa que afete o futebol mundial seja “apresentada e discutida com as Confederações, o Conselho da Fifa, as Associações Membros e outras partes interessadas de maneira oportuna, transparente e significativa”.
A Federação Mexicana de Futebol também celebrou a decisão, destacando que “a unidade entre todas as Confederações e Federações foi priorizada em benefício do futebol”. A Concacaf (América do Norte, Central e Caribe) também havia condenado a iniciativa, e até mesmo a Conmebol (América do Sul), cujo presidente Alejandro Domínguez é considerado um aliado de Infantino, exigiu mais informações sobre o projeto. Essa unidade na reprovação demonstra o crescente desconforto com a falta de transparência e o estilo de liderança de Infantino.
O Futuro Político de Infantino na FIFA
A controvérsia e o subsequente recuo expuseram o crescente desconforto dentro do futebol mundial com o estilo de liderança de Infantino, colocando em risco seu futuro na presidência da entidade. A pressão sobre ele aumentou significativamente na sexta-feira, com a renúncia do conselheiro sênior Carlos Cordeiro, que classificou a ideia como um “mau negócio” para o esporte.
Infantino, que assumiu a FIFA em 2016 sucedendo Sepp Blatter e foi reeleito duas vezes sem oposição, havia anunciado em abril sua intenção de disputar a reeleição para um quarto mandato em 2027. No entanto, a rápida mudança de posição e a exigência por maior supervisão sobre decisões que poderiam remodelar a governança e o futuro comercial do futebol indicam que seu caminho para a reeleição pode não ser tão tranquilo quanto o esperado. A FIFA, agora, é cobrada por mais transparência em suas decisões estratégicas.





