Home / esporte / Crise Global de Técnicos: A Impaciência Brasileira com Treinadores Contamina

Crise Global de Técnicos: A Impaciência Brasileira com Treinadores Contamina

Crise global de técnicos: a impaciência brasileira com treinadores contamina

A cultura de demissões rápidas de treinadores, uma marca registrada do futebol brasileiro, parece ter cruzado o Atlântico e se estabelecido no cenário internacional. O Mundial de Clubes de 2025, um torneio ainda no futuro, já projeta um cenário alarmante: três dos quatro semifinalistas trocaram de comando técnico em menos de seis meses após a competição, evidenciando uma impaciência que transcende fronteiras e resultados.

O Efeito Dominó Pós-Mundial de Clubes 2025

Em um futuro próximo, o Chelsea, que surpreendentemente venceu o Fluminense por 2 a 0 na semifinal de 8 de julho de 2025, e que viria a se sagrar campeão mundial, anunciou a saída de Enzo Maresca já em 1º de janeiro de 2026. A decisão veio após apenas duas vitórias em dezembro, uma queda de produção atribuída à menor pré-temporada da história devido ao Mundial, e um desgaste na relação com a diretoria. No lado brasileiro, o técnico tricolor Renato Gaúcho pediu as contas em 24 de setembro, após ser eliminado da Sul-Americana, deixando um clube que não vinha bem.

Na outra chave do Mundial, em 9 de julho, o Real Madrid, sob o comando de Xabi Alonso, sofreu uma dura derrota de 4 a 0 para o PSG. Apesar de ter chegado longe no torneio e de ter o peso de substituir o lendário Carlo Ancelotti, Alonso não resistiu. Após perder o clássico contra o Barcelona e a Supercopa da Espanha, o treinador foi demitido pelo futebol errático e por conflitos internos. A rapidez com que esses movimentos ocorreram, mesmo em clubes de ponta, acende um alerta sobre a exportação de uma prática que há muito tempo assola o futebol brasileiro.

A ‘Septicemia’ Brasileira e Suas Consequências

No Brasil, a troca de técnicos se tornou tão comum quanto a troca de camisas, um hábito que já perdemos a conta e o pudor de praticar. Essa rotatividade insana não apenas explica a queda na qualidade do jogo – afinal, quem arriscaria inovar sem tempo para treinar ou sem a garantia de respaldo? –, mas também impede qualquer planejamento de longo prazo. Com um calendário sem pré-temporada, os clubes vivem em uma eterna prova sem estudo prévio, onde a pressão por resultados imediatos sufoca qualquer projeto técnico.

A realidade brasileira é tão pesada que os custos das multas rescisórias se tornaram apenas um detalhe. Acostumamo-nos a essa ‘septicemia’ que corrói cargos e deteriora o espetáculo. O preocupante é que essa impaciência pouco produtiva e inteligente, antes vista como um mal exclusivo do futebol nacional, agora está sendo exportada sem tarifas para onde não deveria, atingindo treinadores com resultados que, por vezes, não são ruins.

O Legado de Sir Alex Ferguson: Um Contraste com a Realidade Atual

A história do Manchester United e de Sir Alex Ferguson serve como um poderoso contraponto a essa tendência. Ferguson permaneceu no comando do clube de outubro de 1986 a maio de 2013, construindo uma era de conquistas sem precedentes. No entanto, ele mesmo admitiu que não sabe como não foi demitido após mais de três anos sem títulos e uma sequência de sete jogos sem vitórias em 1989. Foram necessárias quatro temporadas para conquistar o primeiro troféu (a FA Cup) e sete para ser campeão da Premier League.

A paciência dispensada a Ferguson permitiu que ele construísse um império. Não se espera que todo técnico seja um Sir Alex Ferguson, mas, da maneira como o futebol se move hoje, com a impaciência globalizada, ninguém terá tempo suficiente para tentar sequer se aproximar de tal feito. A longevidade e a construção de legados táticos estão ameaçadas por uma cultura de imediatismo que compromete o futuro do esporte.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *