Uma investigação da Polícia Civil sobre supostos desvios no São Paulo Futebol Clube colocou o presidente Júlio Casares e seus familiares sob os holofotes, com foco em uma prática conhecida como ‘smurfing’ ou ‘structuring’. Esta técnica, comum em crimes de lavagem de dinheiro, envolve a divisão de grandes valores em várias movimentações financeiras menores para evitar o acionamento de mecanismos de controle e notificações automáticas, como as do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O Que é o ‘Smurfing’ e Por Que Ele Levanta Suspeitas?
O termo ‘smurfing’ remete aos pequenos personagens azuis da série animada ‘Os Smurfs’, em alusão ao fracionamento de quantias que ‘ficam pequenas’ individualmente. Na prática financeira, significa realizar depósitos ou saques abaixo de um determinado limite para não chamar a atenção das autoridades. O advogado criminalista Carlo Luchione explica que essa é uma forma clássica de dissimular a origem dos valores, frequentemente acompanhada da fragmentação de depósitos para não acionar a notificação automática obrigatória do Coaf, cujo limite é de R$ 50 mil. Segundo Luchione, a constante movimentação de valores entre empresas ‘laranjas’ e saques fracionados em espécie já configura margem para suspeita de lavagem de dinheiro.
Movimentações Financeiras de Casares Sob Análise
A investigação policial, iniciada por denúncia anônima, é embasada em um relatório do Coaf que monitorou contas do São Paulo e de Júlio Casares. Entre janeiro de 2023 e maio de 2025, o presidente tricolor teve um crédito de R$ 3,19 milhões em sua conta pessoal. Desse total, R$ 1,49 milhão foi depositado em espécie, impossibilitando a identificação da origem, diferentemente de transferências via TED ou Pix. O relatório do Coaf destaca depósitos pequenos e numerosos, incluindo 12 em um único dia, e alguns que chegam a R$ 49 mil, sugerindo um cálculo para evitar a detecção. O órgão concluiu que “a evolução da técnica de depósito evidencia uma tentativa clara de burlar os mecanismos de controle (smurfing)”.
Apenas R$ 617,5 mil dos R$ 3,19 milhões creditados a Casares estão relacionados ao seu salário como presidente do clube. Os restantes R$ 2,57 milhões carecem de lastro salarial. O Coaf observou que, para cada R$ 1 com origem comprovada, outros R$ 4 entraram na conta sem vínculo com a folha de pagamento, com a predominância de depósitos em dinheiro vivo sendo o “indício mais robusto de que recursos não contabilizados estão sendo integrados ao patrimônio pessoal do dirigente”.
Familiares Também São Citados no Relatório do Coaf
A prática de ‘smurfing’ também foi identificada em contas de familiares de Casares. O relatório do Coaf analisou movimentações na conta de sua filha, Deborah de Melo Casares, entre novembro de 2024 e janeiro de 2025. Em 22 de novembro de 2024, sua ex-mulher, Mara Suely, depositou R$ 49,5 mil em espécie na conta de Deborah, um valor novamente ligeiramente abaixo do limite de notificação automática do Coaf. O órgão avaliou que “essa prática (structuring ou smurfing) evidencia o dolo e o conhecimento dos mecanismos de controle por parte da depositante, que limitou o aporte financeiro a um patamar que, em tese, não dispararia os alertas de compliance, configurando clara tentativa de burla ao sistema regulatório”.
Além disso, o Coaf descobriu uma “operação combinada” onde Mara também aportou valores em dinheiro vivo em uma conta do Otto Estúdio de Beleza, do qual Deborah é sócia. No mesmo 22 de novembro de 2024, R$ 37,5 mil entraram na conta da empresa. Entre 6 e 7 de janeiro de 2025, foram depositados R$ 40,1 mil na conta de Deborah e R$ 30 mil na do salão. No total, a filha de Júlio e Mara Casares recebeu R$ 157,1 mil em depósitos em dinheiro. Para o Coaf, a persistência de um “vínculo financeiro tão estreito” entre Casares e Mara sugere que, apesar da separação formal, “existe uma comunhão de interesses econômicos e patrimoniais que permanece ativa e oculta”.
A Defesa do Presidente do São Paulo
Bruno Borragine, advogado que integra a defesa de Júlio Casares, assegura que o montante tem origem lícita. Ele afirma que serão demonstrados a origem, o lastro e a finalidade das quantias, com o apoio de um perito contador. Borragine explica que o dinheiro provém de “economias do Júlio, enquanto ele trabalhava no mercado privado. Ele fez uma reserva financeira”. O advogado argumenta que, ao assumir a presidência com um salário de R$ 27 mil, Casares precisou recorrer a essas economias para manter seu padrão de vida. Ele nega qualquer ligação com os R$ 11 milhões sacados para gastos do São Paulo. Casares, que é advogado, construiu sua carreira nas áreas de marketing e televisão, tendo sido superintendente do SBT e diretor comercial da Record antes de ser eleito presidente do clube em 2020.
Borragine também critica o inquérito policial, alegando que a investigação partiu de outros diretores e de uma empresa parceira do clube, e que não há um fato criminoso atribuído diretamente a Casares. “Em específico ao Júlio, o inquérito não nasceu para investigar o fato criminoso imputado a ele, mas para outras pessoas físicas e jurídica. Ele cai de paraquedas. Foi percorrido o caminho do dinheiro, do final ao começo. Mas o dinheiro é lícito e legítimo”, concluiu o advogado.





