Uma “sensação de tirar a mordaça” é o que resume o impacto das coletivas de imprensa da arbitragem, iniciativa inédita implantada no Campeonato Cearense. A expressão, relatada por um árbitro ao presidente da comissão de arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), Paulo Silvio, ilustra o objetivo do projeto: dar voz aos profissionais que historicamente são o único personagem do futebol sem espaço para se explicar publicamente.
O Porquê da Iniciativa
A ideia nasceu da percepção de que, enquanto jogadores, técnicos e dirigentes debatem suas atuações, os árbitros são expostos sem a chance de contextualizar suas decisões. Erros e acertos, seja em campo ou na cabine do VAR, reverberam por dias na mídia e nas redes sociais, sem a participação do protagonista. “Ele me disse: a sensação que temos é que tiraram a mordaça e que agora podemos mostrar para as pessoas que somos seres humanos”, contou Silvio, destacando a importância da humanização.
Humanização e Transparência
Permitir que o árbitro explique uma falha, algo natural no esporte, tem mudado o tom da discussão. Um dos relatos colhidos pela comissão é de um juiz que, após admitir um erro em coletiva, não foi agredido ou atacado. “Vamos humanizar os árbitros”, afirma Silvio, enfatizando que a iniciativa busca construir um ambiente de maior compreensão e menos hostilidade.
Estrutura e Regras Claras
O projeto não foi improvisado. Ele vem sendo estudado há anos e só agora a diretoria da FCF aprovou sua fase piloto. Antes de colocar os profissionais diante dos microfones, a comissão montou uma estrutura de apoio robusta, com assessoria de imprensa e acompanhamento psicológico. Foram realizadas palestras e ensaios de media training na véspera da competição, e os árbitros com melhor desempenho no treinamento foram os primeiros a serem escalados para as entrevistas.
As coletivas seguem regras específicas. O árbitro fala exclusivamente sobre a partida em questão, detalhando decisões técnicas e disciplinares. Perguntas que fujam deste escopo não são aceitas. Em uma das primeiras entrevistas, o árbitro Joanilson Scarcella foi orientado a não responder a uma pergunta sobre futuras confusões em jogos, gesto que repercutiu. Silvio esclarece: “Isso não é censura, são regras. A pergunta é livre, mas pedimos que seja sobre questões técnicas e disciplinares do jogo que aconteceu”.
O Projeto-Piloto em Andamento
Embora não seja necessário o aval de entidades como CBF ou FIFA para a realização das entrevistas, já que não há restrição em nenhum regulamento, houve um caso particular. No primeiro jogo, a árbitra Rejane Caetano, integrante do quadro FIFA, não pôde falar sem autorização específica, sendo substituída pelo quarto árbitro na coletiva. O teste continua em andamento e, após uma amostra significativa, um relatório detalhado será elaborado e enviado à CBF e à FIFA, podendo servir de modelo para outras federações e competições no futuro.





