A preparação do Brasil para a Copa do Mundo Feminina de 2027 transcende a mera organização de um grande evento esportivo. Para o ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, o Mundial representa uma oportunidade histórica para fortalecer o futebol feminino, ampliar a participação das mulheres no esporte e consolidar políticas públicas que gerem resultados permanentes para o país.
Um Marco Histórico e de Superação
Cordeiro enfatiza a singularidade de sediar a primeira Copa do Mundo Feminina na América Latina, um feito que ocorre em um momento crucial para a modalidade, impulsionado pelo desempenho da Seleção Brasileira. O ministro conecta a realização do torneio à longa história de exclusão das mulheres no futebol brasileiro, que chegou a ser proibido por lei durante décadas.
“Foram 40 anos de proibição. As mulheres não podiam jogar futebol, e a lei dizia que era incompatível com a natureza feminina. Imagina, né? Uma coisa absurda”, afirmou Cordeiro, destacando as marcas deixadas por esse período que ainda precisam ser superadas. Ele ressalta ainda a importância do Rio de Janeiro nesse processo, berço das pioneiras que formaram a primeira seleção brasileira feminina em 1988 e de jogadoras que reconstruíram a modalidade após o fim da proibição.
Para Cordeiro, a Copa de 2027 é a “coroação desse momento do Brasil que está se colocando no mundo como um país que está na vanguarda” do fortalecimento da mulher e do enfrentamento à violência. “A gente acha que o futebol é a última barreira para a gente vencer, para que a mulher esteja colocada, para que a mulher esteja bem posicionada no meio”, projeta.
Os Três Legados: Social, Esportivo e Sustentável
Aprendendo com as experiências das Copas de 2014 e 2016, o planejamento do Mundial de 2027 foca na construção antecipada de legados. O ministro delineia três pilares fundamentais: o social, o esportivo e o sustentável.
No campo esportivo, a prioridade é expandir as oportunidades para meninas que sonham em jogar futebol e criar um ecossistema que as mantenha na modalidade. Isso inclui o fortalecimento das categorias de base, dos clubes e dos centros de treinamento. “A intenção do Governo Federal é que a gente aumente essa quantidade de centros de treinamento de futebol feminino, porque é daí que sai, né, gente?”, explicou Cordeiro, conectando essa iniciativa ao legado social de empoderamento e capacitação.
Cordeiro também defende uma mudança radical na forma como o futebol feminino é tratado comercialmente. Não basta garantir a sustentabilidade das competições; é preciso transformar a modalidade em uma atividade economicamente viável. “A gente tem uma Série A masculina que é uma das melhores do mundo, e a Série A feminina joga no meio da manhã de domingo e, às vezes, em estádio de várzea. Não tem condição”, criticou, enfatizando que “não tem momento mais profícuo para que essa mudança se dê como agora”.
Investimentos em Infraestrutura e Inclusão Social
A expansão da infraestrutura esportiva é outro destaque da gestão. O Programa Arena Brasil, integrado ao Novo PAC, já conta com mais de 700 arenas “PACtuadas” e espalhadas pelo país, oferecendo campo society, quadra de basquete 3×3, pista de caminhada, playground e estrutura de apoio, com o objetivo de ser um espaço de qualidade de vida para toda a família. Até julho de 2026, 41 Arenas Brasil foram entregues, e outras 260 habilitadas, com investimento de R$ 390 milhões, seguindo um padrão nacional de excelência.
O esporte é visto como um instrumento poderoso de prevenção em saúde, inclusão social e convivência comunitária. “O esporte é a forma mais barata de você investir em saúde, em socialização, em construção de ambientes saudáveis”, afirmou o ministro. Ele cita o Programa TEAtivo, desenvolvido em parceria com a APAE Brasil, que leva prática esportiva a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em todas as capitais do Norte e do Nordeste, um projeto que Cordeiro descreve como “emocionante” ao visitar seus núcleos.
Fomento ao Alto Rendimento e Financiamento do Esporte
No alto rendimento, o Ministério do Esporte celebra o reajuste do Bolsa Atleta, o primeiro desde 2014, e o número recorde de 11,2 mil atletas contemplados em 2026, abrangendo modalidades olímpicas, paralímpicas e surdolímpicas, com um orçamento de R$ 231 milhões. A Lei de Incentivo ao Esporte também é destacada como a “maior ferramenta do esporte no Brasil”, movimentando cerca de R$ 1 bilhão em projetos e alcançando mais de 1 milhão de brasileiros. A partir de 2028, o limite de dedução do Imposto de Renda para empresas apoiadoras aumentará de 2% para 3%, visando ampliar a participação privada no financiamento esportivo.
Cordeiro defende o esporte como uma política pública estratégica, não apenas entretenimento. “Esporte é saúde preventiva, saúde mental, é inclusão social”, afirma, ressaltando que é uma indústria maior que a audiovisual no Brasil do ponto de vista econômico. Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) indicam que, para cada R$ 1 investido no futebol brasileiro, R$ 20 retornam para a economia, impulsionando setores como transporte, hotelaria, restaurantes e comércio.
A Copa Começa Antes: Organização e Impacto
A preparação para a Copa de 2027 é tão abrangente que levou à criação de uma Secretaria Extraordinária dedicada exclusivamente ao Mundial. Essa estrutura permite antecipar problemas e articular diferentes setores envolvidos na organização, mostrando que “uma Copa do Mundo inicia no apito do primeiro jogo. Não. A gente já está há mais de dois anos lidando com isso”, explicou o ministro, citando a articulação para garantir cidades-sede como Brasília e Rio de Janeiro.
As expectativas econômicas são significativas: um estudo da FGV e Embratur estima que a Copa do Mundo Feminina movimentará mais de R$ 8,8 bilhões na economia brasileira e gerará mais de 73 mil empregos diretos e indiretos, além de impulsionar o turismo esportivo, nacional e internacional.
Entre os investimentos de infraestrutura, destaca-se a conectividade, com previsão de cerca de R$ 220 milhões para ampliar a infraestrutura tecnológica nos estados envolvidos. A intenção é que essa estrutura permaneça após o Mundial, beneficiando a população em geral. No centro dessa estratégia está a tentativa de transformar a relação do brasileiro com o futebol feminino. “O maior legado da Copa Feminina de 2027, que é a primeira da América Latina, é um legado sociocultural. É um legado de fazer virar a chave da forma como o brasileiro, tão apaixonado com o futebol, encara o futebol feminino e encara o futebol masculino de uma forma e o feminino de outra”, conclui o ministro, reiterando o objetivo de tornar o futebol feminino praticado por todas as mulheres e, mais do que isso, rentável. “Não tem momento mais profícuo para que essa mudança se dê como agora.”




